A ciência espírita no tempo


Não existe nada atemporal. Tudo está no tempo.
Religiosos de todas as épocas tentaram dizer o contrário. Cada grupo defende a supremacia do seu deus, apresentando, mesmo que de forma rudimentar, a idéia de um ser anterior ou fora do tempo, apesar de interferir nele.
Os gregos acreditavam que seus deuses transformavam-se em animais (gansos, touros, etc.) para agir diretamente no tempo, amando belas mulheres virgens (preferidas pelos deuses) e gerando heróis, isto é, seres meio homem, meio deus. 
Os cristãos acreditam que seu deus, para entrar no tempo, fez-se homem. Na figura alegórica de um pássaro, o deus cristão ou uma das "pessoas" de deus (confuso, não?) produziu a imaculada concepção de si mesmo numa virgem.

E os livros sagrados? Não são atemporais? Obviamente, não. Foram escritos por pessoas e valorados por nós, homens no tempo, como sagrados e não profanos.
Os deuses são frutos do tempo. Cada tempo tem os seus.
Mas deixemos a mitologia de lado.
O homem no tempo produz cultura, faz história.
Nesse processo do homem no mundo ao longo do tempo, se faz ciência, se busca a verdade. Isto é, se constrói conhecimento. Logo, o conhecimento é também fruto do tempo. Transforma-se, evolui.
Talvez a verdade definitiva seja atemporal, mas o conhecimento não.
O Espiritismo surge no tempo como ciência, ou seja, como um meio de produzir conhecimento.
Ele percorre, com seu fundador, caminhos interessantes desde 1857 (com a publicação do primeiro livro espírita), até 1869 (com a morte de Allan Kardec).
Alguns conceitos se transformaram, outros foram elaborados e, assim como qualquer ciência, o Espiritismo avançou não fora do tempo, mas mergulhado nele e como fruto dele. 
Lembrarei aqui alguns exemplos de transformação conceitual nas obras kardequianas.
Ligação Espírito-matéria
Allan Kardec, na primeira edição de O Livro dos Espíritos, diz ser o feto desprovido de Espírito. Com o nascimento ocorreria a ligação do Espírito com o corpo.
Na segunda edição da obra citada, o autor estabelece uma nova idéia: a concepção (quando houvesse um Espírito destinado a habitar o futuro corpo) demarcaria o início de um processo de vinculação Espírito-matéria que se completaria no nascimento.
Possessão
Na sua obra O Livro dos médiuns ou guia dos médiuns e dos evocadores, Allan Kardec nega a possibilidade de um Espírito usar o corpo de um Espírito encarnado. Por isso prefere o termo subjugação, em detrimento do conhecidopossessão.
Com o tempo, e especialmente após o estudo do caso dos "possessos de Morzine", o fundador do Espiritismo volta atrás, declarando ter sido demonstrada a possessão.
Instinto
Primeiramente o instinto era tido como uma "inteligência rudimentar". Posteriormente, Allan Kardec nega esta definição, pois os problemas que ela levanta são graves. Prefere abrir a discussão apresentando hipóteses para a origem do instinto, mas deixando ao futuro o melhor esclarecimento sobre o tema.
Jesus
Uma mudança muito interessante nas obras de Allan Kardec foi a localização de Jesus da escala espírita.
A escala espírita é fundamental na construção metodológica de Allan Kardec. Ele a chama de "a chave da ciência espírita". 
Primeiramente Jesus está alocado na segunda ordem da escala. Ele é caracterizado como espíritos superior. 
Ao longo das obras percebemos que o tratamento dispensado a Jesus pelos Espíritos e pelo próprio Kardec vai ganhando outra conotação. Chamam-no de puro.
Aqui teremos uma aparente anomalia no sistema que produzirá alguns problemas históricos.
Na escala, os espíritos superiores "quando, por exceção, encarnam na Terra, é para cumprir missão de progresso e então nos oferecem o tipo da perfeição a que a Humanidade pode aspirar neste mundo."
Já os puros "se despojaram de todas as impurezas da matéria (...). Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.
Visto que Jesus era tido como puro, e, segundo a escala kardequiana puros não reencarnam (somente os superiores e em caráter de exceção) tentou-se solucionar o problema da seguinte forma: Jesus não reencarnou, somente esteve no mundo em aparência, em corpo espiritual. 
Salvaguardar-se-ia a escala e a pureza de Jesus.
Allan Kardec não aprovou esta tese e, na sua última grande obra, elaborou uma explicação inicial para solucionar o problema ao tratar da Superioridade da natureza de Jesus ².
Cada um destes temas (ligação Espírito-matéria, possessão, instinto e Jesus) será desenvolvido separadamente em artigos futuros.
Eles, aqui, apenas serviram para ilustrar a idéia de que o Espiritismo não é atemporal, não foi criado perfeito, nem acabado. Não foi fundado para ser sagrado, mas científico. 
Avançou durante o período em que seu fundador entregou sua vida ao prazer de construir algo novo, sério e encantadoramente racional.
O que fizeram com esta ciência depois... Bem, isto é outra história.

¹ Ver O Livro dos Espíritos, a partir do item 100.
² A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Capítulo XV.

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