ALLAN KARDEC É O AUTOR DA DOUTRINA ESPÍRITA

  GILBERTO ALLIEVI


                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Tornou-se polêmica a afirmação de que Allan Kardec é o Autor da Doutrina Espírita. Não existem fundamentos fáticos ou conceituais que possam afastar sua autoria, como se demonstrará. Se, por um lado a revelação  surgiu pela iniciativa dos Espíritos, por outro, o trabalho que deu origem a doutrina não foi resultado de nenhum Espírito, em particular, mas resultado da coordenação metódica das mensagens  oriundas de todos os pontos do globo, colocando a condição para que fosse ela denominada como de doutrina dos Espíritos.



Ensina Allan Kardec:

“Sem embargo da parte que toca à atividade humana na elaboração desta doutrina, a iniciativa da obra pertence aos Espíritos, porém, não a constitui a opinião pessoal de nenhum deles. Ela é, e não pode deixar de ser, a resultante do ensino coletivo e concorde por eles dado. Somente sob tal condição se lhe pode chamar doutrina dos Espíritos.” A Gênese, Introdução, FEB, 52ª. ed. pág. 15
                                                        
Na direção que objetivava a concordância no  ensino dos Espíritos é que definiu a metodologia utilizada na construção da nova doutrina. Teve acesso a milhares de mensagens. Surgem as indagações, as respostas, sendo sua primeira constatação a de que os Espíritos pertenciam a vários níveis e graus evolutivos, o que o fez impor-se rigorosos critérios de análise, para que a elaboração da então incipiente  doutrina  pudesse  estar imune às contradições e  plenamente fundamentada na razão. O trabalho do homem era indispensável, como se vê do Caráter da Revelação Espírita:

“... a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos lhe põem sob os olhos e das instruções que lhe dão, instruções que ele estuda, comenta, compara a fim de tirar ele próprio as ilações e aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a SUA ELABORAÇÃO FRUTO DO TRABALHO DO HOMEM”.   A Gênese, 15, cap. I, 13. (grifos no original e nossos)


O Dicionário Houaiss menciona o verbo “elaborar” como preparar,  realizar, organizar, fazer um plano. Pode-se dizer, com acerto, que quem prepara, organiza e realiza um plano é seu Autor. Quase redundante!
Pergunta-se: se o Espiritismo não representou a opinião de nenhum espírito em particular, a quem caberia definir o que faria parte da doutrina, senão o próprio Allan Kardec? Fica compreensível a utilização do método experimental, dispensável, caso fosse mero ditado dos espíritos. A elaboração da ciência espírita seguiu os mesmos critérios das ciências positivas, assim explicado pelo Mestre:

“Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara, analisa, e  remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz-lhes as conseqüências e busca as aplicações úteis ”. A Gênese, cap. I, 14, pág. 15

Afirma ainda, no mesmo item, ser “rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação”.
Também nas ciências em geral não se pode prescindir da observação, vez que tudo está em a Natureza. A lei da gravitação universal de Newton ou a teoria da relatividade por Einstein, e todas as outras nasceram nesse foco de pesquisa, muito embora os fatos que lhe foram objeto de análise sempre existissem, como as próprias verdades espíritas. Como homem talhado por imenso preparo intelectual e moral, seria incogitável que abdicasse da sua razão na busca da verdade. Nesse foco Kardec questiona a autoridade da revelação espírita, assim se posicionando:  

“A objeção seria ponderosa, se essa revelação consistisse APENAS no ensino dos Espíritos, se deles exclusivamente devêssemos receber e houvéssemos de aceitá-la de olhos fechados. Perde, porém, TODO SEU VALOR, desde que o homem concorra para a revelação com o seu raciocínio e o seu critério; desde que os Espíritos se LIMITAM a pô-lo no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos...” A Gênese, cap. I, 57, pág. 56 (destaque nosso)

Estava absolutamente convicto Allan Kardec da necessidade de seu trabalho na elaboração da doutrina. Sabia que os questionamentos, as deduções, as inserções, as análises eram a essência de sua missão para a construção da ciência espírita, por isso, coerente sua percepção de que os espíritos tinham o caráter de colaboradores, e não de reveladores:
“Ora, as manifestações, nas suas inumeráveis modalidades, são fatos que o homem estuda para lhes deduzir a lei, auxiliado nesse trabalho por Espíritos de todas as categorias, que, de tal modo, são mais COLABORADORES seus do que REVELADORES, no sentido usual do termo.” A Gênese, cap. I, 57, pág. 56... (destaques nossos)

Fosse lá o Espiritismo mera revelação de caráter mediúnico a característica de ciência inexistiria, seria um engodo até. Desde a primeira edição de O Livro dos Espíritos - que alguns equivocamente pensam ter sido uma mera recepção mediúnica - até o último momento de sua publicação, procedia as alterações até mesmo nas respostas já dadas pelos espíritos, como se deduz de suas afirmações:

“Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas, classificadas e muitas vezes remodeladas no silêncio da meditação foi que ELABOREI a primeira edição de O Livro dos Espíritos...” In Obras Póstumas, “A Minha Primeira Iniciação ao Espiritismo”, pág. 271, FEB. (destaque nosso)

Não se cansava de indagar aos espíritos, mesmo já tendo o trabalho por concluído, exaurindo todas as dúvidas até seu total convencimento, com o auxílio de médiuns e espíritos:

“Estava concluído, em grande parte, o MEU TRABALHO e tinha as proporções de um livro. Eu, porém, fazia questão de submetê-lo ao exame de outros Espíritos, com o auxílio de diferentes médiuns...” Obras Póstumas, FEB pág. 270, (grifo nosso)


Na Viagem Espírita, 1862, no discurso aos espíritas de Lyon e Bordeaux, não deixa margem de dúvidas quanto a sua efetiva autoria:

“Onde quer que MINHAS OBRAS penetraram e servem de guia, o Espiritismo é visto sob o seu verdadeiro aspecto, isto é, sob um caráter exclusivamente moral”.

Diz Canuto Abreu na Introdução à apresentação à primeira edição de O Livro dos Espíritos, com a citação por ele mencionada, na Revista Espírita, das palavras de Kardec:

“E, quando decidia em prol duma doutrina, fazia-o com tamanha segurança que ninguém, encarnado ou desencarnado, seria capaz de levá-lo a reconsiderar, pois havia eliminado todos os argumentos em contrário:”

 (e cita o próprio Kardec):

”Procedemos assim com a Doutrina da Reencarnação que, embora proveniente de Espíritos Superiores, não adotamos senão após ter reconhecido que ela só, mas somente ela, podia resolver o que nenhuma filosofia tinha resolvido, e com isso com abstração das provas objetivas que nos davam dela todos os dias. Pouco nos importam pois os contraditores, sejam mesmo Espíritos; “

                                   
Os Espíritos, mesmo antes da publicação da primeira obra, apontavam para Kardec sua missão de reformador, a ponto de lhe exigirem que expusesse sua pessoa, não bastando publicar os livros e ir para a sua casa.  Obras Póstumas, FEB, pg. 282.
Seu trabalho foi de enfrentamento, sua missão era a de “transformar o mundo inteiro”, como lhe foi dito pelo Espírito de Verdade nos primórdios da Doutrina. Inevitável o embate contra os interesses das visões tradicionais religiosas, bem como do materialismo vigente.  Denominar Allan Kardec de Mestre e Autor da Doutrina Espírita não é lhe prestar nenhum favor, mas atestar sua extraordinária missão, até porque o Espiritismo não é nenhum  código a ser desvendado.                                                                                 

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