Apontamentos sobre a Escala Espírita

Allan Kardec chamou de Escala Espírita a classificação dos Espíritos elaborada segundo critérios que levavam em conta o desenvolvimento intelectual e moral dos Espíritos.
Com ela podemos saber qual o nível dos Espíritos que entram em contato conosco, "bem como saber onde nos encaixamos nela e quanto nos falta para atingir a perfeição".¹
A Escala Espírita seguiu esta ordem de publicação:


1º O Livro dos Espíritos, 1ª edição, 1857.
2º Revista Espírita, Fevereiro de 1858,
3º Instrução Prática das Manifestações Espíritas (1858),
4º O Livro dos Espíritos, 2ª edição (1860).

Os rudimentos desta classificação aparecem em 1857, na primeira edição de O Livro dos Espíritos.
Do item 55 ao 57, os Espíritos apresentam a Allan Kardec três ordens de Espíritos:

1ª Espíritos puros;
2ª Espíritos bons;
3ª Espíritos imperfeitos.

Comentando as respostas dos Espíritos, Allan Kardec inicia uma classificação da terceira ordem, apresentando-a assim:

1º Os Espíritos neutros: Os que não são bastante bons para fazer o bem nem bastante maus para fazer o mal.
2º Os Espíritos impuros: Os que são inclinados ao mal que é o objeto de suas preocupações.
3º Os esprits follets² : “ São levianos, malignos, insensatos, mais turbulentos que maus; metem-se em tudo e se comprazem em causar pequenos desgostos e risotas, ou de induzir maliciosamente em erro para mistificações. Podem ser designados também pelos termos lunáticos, tentadores".

Em fevereiro de 1858 a Escala Espírita é publicada pela primeira vez com esse título. Nessa oportunidade Allan Kardec deixa claro alguns pontos da elaboração da Escala³:

1º - O que demarca as diferenças dos Espíritos:
"Não pertencem eternamente à mesma ordem e que, em consequência, essas ordens não constituem espécies distintas: são graus do desenvolvimento";

"A classificação dos Espíritos é baseada em seu grau de progresso, nas qualidades adquiridas e nas imperfeições de que devem despojar-se".

2º - Sobre as fronteiras entre uma classe e outra:
"Cada categoria só apresenta um caráter marcante no seu conjunto; mas de um a outro grau a transição é insensível e nos limites a nuança se apaga, como nos ramos da Natureza, nas cores do arco-íris ou nos vários períodos da vida humana. Pode-se pois formar um maior ou menor número de classes, conforme o ponto de vista sob o qual se considerar o assunto".

3º - Sobre a participação dos Espíritos e de Allan Kardec na confecção da Escala:
"Para eles o pensamento é tudo: deixam-nos a forma e a escolha das expressões, as classificações ― numa palavra, os sistemas";

"É que eles [os sábios botânicos] não inventaram as plantas nem seus caracteres; observaram as analogias e, segundo estas, formaram grupos ou classes. Assim também nós: nem inven¬tamos os Espíritos nem seus caracteres; vimos e observamos. Julgamo-los por suas palavras e atos, depois os classificamos por suas similitudes. Eis o que qualquer um, em nosso caso, teria feito";

" (...) não podemos reivindicar a autoria de todo o trabalho. Se o quadro que damos a seguir não foi traçado textualmente pelos Espíritos e se é nossa a iniciativa, todos os elementos que o compõem foram hauridos em seus ensina-mentos: o que nos restava era apenas formular uma disposição material".

Aqui, Allan Kardec retoma o que os Espíritos lhe apresentaram em 1857:

"Os Espíritos geralmente admitem três categorias principais ou grandes divisões. Na última, na base da escala, estão os Espíritos imperfeitos, que devem ainda percorrer todas ou qua¬se todas as etapas; são caracterizados pela predominância da matéria sobre o Espírito e pela inclinação para o mal. Os da segunda são caracterizados pela predominância do Espírito sobre a matéria e pelo desejo do bem: são os bons Espíritos. A pri¬meira, enfim, compreende os Espíritos puros, os que atingiram o grau supremo de perfeição".

E esclarece sobre sua participação:

"Esta divisão nos parece perfeitamente racional e apresenta caracteres bem definidos. Só nos restava destacar, em número suficiente de divisões, as nuanças principais do conjunto; foi o que fizemos com o concurso dos Espíritos, cujas benévolas instruções jamais nos faltaram".

Ainda em 1858, no primeiro semestre, é publicado o livro Instrução Prática das Manifestações Espíritas.
No primeiro capítulo do Instrução, Allan Kardec afirma que a diferenciação das ordens dos Espíritos é um dos mais importantes princípios da Doutrina Espírita.
Não houve mais alterações na Escala até 1860.
Com a publicação da segunda edição de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec traz uma nova classe de Espíritos à Escala. Se anteriormente ela continha 9 classes, agora são 10.
Na realidade, não surge uma classe do "nada". A classe dos "Espíritos batedores" já estava contida na oitava classe, a dos Espíritos Levianos.
Para finalizar, eis um esquema apresentando as transformações da Escala:

1857:
1ª ordem
Espíritos puros
2ª ordem
Espíritos bons
3ª ordem
Espíritos imperfeitos Espíritos neutros
Espíritos impuros
Esprits follets

1858:
1ª ordem
Espíritos puros
Classe única
2ª ordem
Espíritos bons
2ª classe
ESPÍRITOS SUPERIORES
3ª classe
ESPÍRITOS SÁBIOS
4ª classe
ESPÍRITOS CULTOS
5ª classe
ESPÍRITOS BENEVOLENTES
3ª ordem
Espíritos imperfeitos
6ª classe
ESPÍRITOS NEUTROS
7ª classe
ESPÍRITOS PSEUDO-SÁBIOS
8ª classe
ESPÍRITOS LEVIANOS
9ª classe
ESPÍRITOS IMPUROS

1860:
1ª ordem
Espíritos puros
Classe única
2ª ordem
Espíritos bons
2ª classe
ESPÍRITOS SUPERIORES 3ª classe
ESPÍRITOS SÁBIOS
4ª classe
ESPÍRITOS CULTOS
5ª classe
ESPÍRITOS BENEVOLENTES
3ª ordem
Espíritos imperfeitos
6ª classe
ESPÍRITOS BATEDORES
7ª classe
ESPÍRITOS NEUTROS
8ª classe
ESPÍRITOS PSEUDO-SÁBIOS
9ª classe
ESPÍRITOS LEVIANOS
10ª classe
IMPUROS


¹ texto presente nas publicações da Escala.
²Segundo o dicionário: follet: maluco, tonto; travesso; esprit follet, duende. Em 1858, Kardec muda o nome dessa classe para Esprits légers, Espíritos levianos.
³Os grifos são nossos.

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