Inimigos de Allan Kardec


Maria Carolina Gurgacz

Você sabia que Allan Kardec sofria os mais variados ataques durante o período de construção do Espiritismo? Porém, o mais espantoso, segundo ele mesmo, é que ele tinha adversários entre os próprios adeptos do Espiritismo.
       No Discurso I, pronunciado nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux e transcrito para o livro “Viagem Espírita em 1862”, Kardec fala sobre os adversários seus e do Espiritismo. Chega a dizer que são inimigos.

Durante o discurso ele se questiona “No estado atual das coisas aqui da Terra, qual é o homem que não tem inimigos? Para não tê-los fora preciso não habitar aqui, pois esta é uma conseqüência da inferioridade relativa de nosso globo e de sua destinação como mundo de expiação. Bastaria, para não nos enquadrarmos na situação, praticar o bem? Não! O Cristo aí está para prová-lo. Se, pois, o Cristo, a bondade por excelência, serviu de alvo a tudo quanto a maldade pôde imaginar, como nos espantarmos com o fato de o mesmo suceder àqueles que valem cem vezes menos?”
Ele nunca respondeu  com hostilidade a nenhuma crítica recebida. Talvez porque  acreditava que ser benevolente era uma forma de tocar os corações dos Homens, pois para ele, o ser beneficiado, poderia ser estimulado a sentimentos elevados por um  proceder reto, podendo assim levá-lo a refletir e suavizar sua alma e quem sabe até mesmo salvá-lo! Ele afirma que muitas vezes acompanhou espíritos muito duros terem suas almas tocadas pela benevolência e ajudando-os assim a buscar o caminho do bem.
Quanto aos inimigos que se consideravam espíritas, Allan Kardec destaca esses:
1. Médiuns profissionais, que cobravam como cartomantes, para consultar os espíritos. Sobre eles Kardec diz “Não pretendo absolutamente dizer que entre os médiuns profissionais não existem muitos que sejam honestos e dignos de consideração. Mas a experiência provou, a mim e a muitos, que o interesse é um poderoso estimulante à fraude, pois que tem em mira o lucro; e se os Espíritos não colaboram – o que freqüentemente ocorre, pois que não estão por conta de nossos caprichos, - a astúcia, fecunda em expedientes, encontra facilmente meio de supri-los, Para um que agir lealmente, haverá cem dispostos ao abuso e que conspurcarão a reputação do Espiritismo.”
Kardec considera isso uma especulação material e acredita que isso só traz malefícios para aquele que busca, pois não existe garantias de que o Espírito seja quem diz ser.
2. Médiuns vaidosos, segundo ele “É o caso dos que acreditam, sem interesse pecuniário, ser possível fazer do Espiritismo um pedestal honorífico para se colocarem em evidência.” Ele considera isso uma especulação moral.”
3. Ciumentos, que como ele define são as “pessoas que não me perdoam o fato de ter sido bem sucedido, para as quais o sucesso de minhas obras é uma causa de desgosto, que perdem o sono quando assistem aos testemunhos de simpatia que, espontaneamente, são me dispensados. É a faixa do ciúme, reforçada por todos aqueles que, por temperamento, não toleram ver um homem erguer um pouco a cabeça sem tentar um movimento de fazê-lo submergir.
4. Médiuns obsidiados (fascinados) que acreditam que estão acima de qualquer julgamento, que são extremamente orgulhosos e que “tudo quanto recebem é sublime e só pode vir dos Espíritos Superiores, que se irritam com a menor observação crítica, a ponto de se malquistarem com seus amigos quando estes têm inabilidade de não admirar o que lhes parece absurdo.” Kardec diz que esses médiuns se aborrecem com facilidade, por qualquer motivo insignificante como não ter sua mensagem lida por primeiro, não ter um lugar de bastante evidência durante a reunião, muitos deles gostariam de se considerar médiuns titulares do grupo pretendendo que seus Espíritos guias sejam considerados árbitros infalíveis de qualquer questão, entre outras coisas. Ele diz que a época, muitos diretores dos grupos e das sociedades vinham sofrendo com esses médiuns, ele os convida a tomar sua atitude, isto é, “não dando importância a médiuns que antes constituem um entrave que um recurso. Em sua presença está-se sempre pouco à vontade, no temor de os ferir com ações por vezes as mais insignificantes.”
5. Pessoas que jamais estão contentes. Algumas criticavam Kardec porque estava indo rápido demais, sobre isso ele diz “reprovam-me por haver formulado princípios prematuros, de me colocar como chefe de uma escola filosófica. Mas acontece que, pondo-se a idéia espírita à parte, não poderia eu acaso arrogar-me, como tantos outros, a autoria de um sistema filosófico, fosse ele o mais absurdo? Se os meus princípios são falsos, por que não apresentam outros que os substituam, fazendo-os prevalecer? Ao que parece, entretanto, de modo geral eles não são julgados irracionais, já que encontram aderentes em tão grande número. Mas não será exatamente isso que excita o mau humor de certas pessoas? Se esses princípios não encontrassem partidários, se fossem ridículos a partir do primeiro enunciado, seguramente, deles não se falaria.” Outras criticavam-no por ir com muita lentidão, e ele, com sua suave ironia comenta “esses desejariam me empurrar – com boa intenção, quero crer, pois é sempre melhor pressupor o melhor que o pior – em um caminho onde não quero me arriscar. Sem, pois, me deixar influenciar, seja pelas idéias de uns, seja pelas de outros, sigo a rota que eu mesmo tracei: tenho um objetivo, vejo-o, sei como e quando o atingirei e não me inquietam os clamores dos que passam por mim.”
6. E finalmente, ele define seus últimos inimigos como “pessoas que são postas, relativamente a mim, em posições falsas, ridículas e comprometedoras e que procuram se justificar, em última instância, recorrendo a pequenas calúnias: os que esperavam seduzir-me pelos elogios, crendo poder levar-me a servir aos seus desígnios e que reconheceram a inutilidade de suas manobras para atrair minha atenção; aqueles que não elogiei nem incensei e que isso esperavam de mim; aqueles, enfim, que não me perdoam por ter adivinhado suas intenções e que são como a serpente sobre a qual se pisa. Se todas essas pessoas decidissem se colocar, por um instante sequer, em uma posição extraterrena e ver as coisas um pouco mais do alto, compreenderiam bem a puerilidade daquilo que as preocupa e não se espantariam com a pouca importância que a tudo isso dão os verdadeiros espíritas.”
Kardec termina esse discurso falando sobre uma das principais acusações que ele sofria, a de não ir atrás das pessoas que, por um motivo qualquer, se afastavam dele e do Espiritismo.
Quanto a isso ele se questiona “Aqueles que de mim se aproximam, fazem-no porque isto lhes convém; é menos por minha pessoa do que pela simpatia que lhes desperta os princípios que professo. Os que se afastam fazem-no porque não lhes convenho ou porque nossa maneira de ver as coisas reciprocamente não concorda. Por que, então, iria eu contrariá-los, impondo-me a eles? Parece-me mais conveniente deixá-los em paz.”
Ele sempre deixa muito claro que não tem tempo a perder correndo atrás de pessoas que tem interesse em qualquer coisa, menos no Espiritismo. Acredita que deve dedicar-se àqueles que considera homens de boa vontade.
E finaliza falando sobre seus adversários o seguinte “Tenho adversários, eu sei! Mas o número deles não é tão grande quanto poderia fazer supor a enumeração mencionada. Eles se encontram nos grupos que citei, mas são apenas indivíduos isolados e seu número pouca coisa é em comparação com os que desejam testemunhar-me sua simpatia. Além disso, nunca conseguiram perturbar-me o repouso, nem uma vez sequer suas maquinações, suas diatribes me emocionaram e devo acrescentar que essa profunda indiferença de minha parte, o silêncio que oponho aos seus ataques, não é o que os exaspera menos. Por mais que façam, jamais conseguirão fazer-me sair da moderação e da regra que tenho por conduta. Nunca se poderá dizer que respondi à injúria com injúria. As pessoas que me conhecem na intimidade podem dizer se jamais os mencionei, se alguma vez, na Sociedade, foi dita uma única palavra, foi feita uma única alusão relativamente a qualquer um deles. Mesmo pela Revista, jamais respondi às suas agressões, se dirigidas à minha pessoa, e Deus sabe que elas não têm faltado!”
Em vários momentos de suas obras é possível notar como Allan Kardec foi um grande homem. Porém, em seus discursos, onde a coisa é mais pessoal, isso fica ainda mais evidente. Ele é o que podemos chamar de verdadeiro homem de bem, com virtudes e qualidades muito raras na Terra.
Sua postura sempre foi exemplar e creio que por isso o Espiritismo é algo tão especial, pois teve este homem admirável e grandioso que a ele dedicou toda sua força e sua vida.


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