Allan Kardec e o divórcio

O Espiritismo é acusado de incentivar o divórcio 




Em 1857 o Livro dos Espíritos é publicado e nele aparece a seguinte questão: 

"Está na lei da Natureza, ou somente na lei humana, a indissolubilidade absoluta do casamento? 
“É uma lei humana muito contrária à da Natureza. Mas os homens podem modificar suas leis; só as da Natureza são imutáveis.” 
336 na 1ª e 697 na 2ª. 

A resposta cai como uma bomba no colo dos moralistas da época, principalmente nos que entendiam o casamento celebrado "diante de Deus" como indissolúvel.
Allan Kardec passa a indissolubilidade do casamento do nível sagrado para o legal. E sendo legislação humana passível de transformação, para a mentalidade religiosa, centrada no imutável, era uma agressão a seus princípios. 
Vejamos algumas acusações interessantes, sofridas pelo Espiritismo em 1862: 

"O Livro dos Espíritos prega o comunismo, a partilha dos bens, o divórcio, a igualdade entre todos os homens e, sobretudo entre o homem e a mulher..." 
Padre Lapeyre. 

"Estou certo, caros irmãos e caras irmãs, que entre vós não há um só médium, porque, vede, os Espíritos não admitem casamento nem batismo; e todos os Espíritas se separaram de suas esposas, etc...” 
Bispo de Texas. 

Como Allan Kardec vê o casamento? 

O fundador do Espiritismo entende que o casamento está sob três leis: 
1ª lei natural material: procriação; 
2ª lei natural moral: amor; 
3ª lei dos homens: a legislação humana sobre o casamento. 
As duas primeiras, como são leis naturais, são imutáveis. A terceira lei é passível de mudanças, revisões, isto é, tende a progredir ao longo do tempo. 
Quando escreve no Evangelho segundo o Espiritismo o capítulo "Não separeis o que Deus juntou", Allan Kardec certamente sabia das represálias que sofreria. Numa sociedade judaico-cristã, ele opta por seguir uma linha histórica de legisladores que para muitos são entes sagrados e cujas leis são intocáveis. 
Quando trata da questão sob o ponto de vista de Moisés, afirma este ter liberado o divórcio por que, já a seu tempo "não sendo a afeição mútua a única determinante do casamento, a separação podia tornar-se necessária." 
Depois analisa a proposta de Jesus como sendo uma legislação humana, isto é, conforme vimos acima, passível de mudança e revisão. Sua lei determina ser o divórcio legal em uma situação: o adultério. Apenas quem sofria o adultério podia pedir o divórcio. E aquele que casasse com uma mulher adúltera cometia também adultério. 
Esta última idéia parece um tanto estranha, mas, segundo Allan Kardec, era um progresso, se compararmos com a legislação de Moisés. A lei moisaica determinava o apedrejamento da adúltera, na lei cristã, ela era passível da seguinte pena: ninguém mais se casaria com ela. Progresso inegável. 
Jesus, ao tratar do casamento e da sua indissolubilidade apenas atendia a uma exigência da época. Para Allan Kardec "era, de certo modo, uma lei civil substituída por outra lei civil, mas que, como todas as leis dessa natureza, tinha de passar pela prova do tempo." 
O Espiritismo, segundo Allan Kardec, vem dar uma nova interpretação à assertiva: "Não separeis o que Deus juntou", negando a vigência da lei da indissolubilidade do casamento. Portanto, a legislação cristã sobre o casamento foi, no entender de Allan Kardec, superada pelo Espiritismo. 

E o que diz o Espiritismo sobre o casamento e a possibilidade do divórcio? 

Dentro da idéia inicial das três leis que envolvem o casamento, o Espiritismo defende a supremacia da lei natural moral: a lei do amor. Havendo amor, o casamento é legal. É de fato um casal unido por Deus. Se não existe amor, o melhor é a separação. 
No texto kardequiano leremos: 

"Um dia perguntar-se-á o que é mais humano, mais caridoso, mais moral: se encadear um ao outro dois seres que não podem viver juntos, se restituir-lhes a liberdade; se a perspectiva de uma cadeia indissolúvel não aumenta o número de uniões irregulares." 

"O divórcio é lei humana que tem por objeto separar legalmente o que já, de fato, está separado. Não é contrário à lei de Deus, pois que apenas reforma o que os homens hão feito e só é aplicável nos casos em que não se levou em conta a lei divina." 

Allan Kardec não incentiva o divórcio, apenas devolve ao casal a decisão que a ele compete. Deixa de lado a hipocrisia e as obrigações sociais para dar lugar ao exercício de uma lei natural. 
Não se separa o que Deus uniu. Mas Deus, de fato, une somente se existe amor.

Um comentário:

Marcelo disse...

O interessante da lei de divórcio é que simplesmente não se obriga um casal a um sofrimento desnecessário, ou seja, se já rompeu-se para aquele casal o amor e o respeito mútuo que é uma necessidade para uma relação, que manter-se-á? Talvez apenas um sofrimento: a convivência. Melhor então que se elimine esse mal e cada um possa seguir seu caminho evolutivo de forma mais agradável e, com certeza, mais produtiva. Porque ausente o que incomoda a mente está mais livre para pensar coisas melhores. É o que penso.

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