I - Fourier ou as passagens



“As mágicas colunas desses palácios
mostram ao amador, por todos os lados,
nos objetos que expõem seus portais:
a indústria, rival das artes mortais."
Nouveaux tableaux  de Paris.

A maioria das galerias de Paris surge no decênio e meio após 1822. A primeira condição para o seu florescimento é a alta do comércio têxtil.
Os magasins de nouveautés, os primeiros estabelecimentos a manterem grandes estoques de mercadorias, começam a aparecer. São os precursores das grandes casas comerciais, a época sobre a qual Balzac escreveu:
"O grande poema da estalagem canta as suas estrofes de cores; desde a Madeleine até a porta Saint-Dénis".
As galerias são centros comerciais de mercadorias de luxo. Em sua decoração, a arte põe-se a serviço do comerciante. Os contemporâneos não se cansam de admirá-Ias, Por longo tempo continuaram a ser um local de atração para os forasteiros. Um Guia ilustrado de Paris afirma:
"Estas galerias são uma nova invenção do luxo industrial, são vias cobertas de vidro e com o piso de mármore, passando por blocos de prédios, cujos proprietários se reuniram para tais especulações. Dos dois lados dessas ruas, cuja iluminação vem do alto, exibem-se as lojas mais elegantes, de modo tal que uma dessas passagens é uma cidade em miniatura, é até mesmo um mundo em miniatura",
As galerias são o cenário das primeiras iluminações a gás.
A segunda condição para o surgimento das galerias é dada pelos primórdios da construção com ferro. Nessa técnica, o Empire viu uma contribuição para a renovação da arte no antigo sentido grego. Boetticher, o teórico da arquitetura, expressa uma convicção generalizada quando afirma que "o princípio formal da sabedoria helênica há de entrar em vigor em função das formas artísticas do novo sistema". O Empire é o estilo do terrorismo revolucionário, para o qual o Estado é um fim em si mesmo. Assim como Napoleão reconheceu bem pouco a natureza funcional do Estado enquanto instrumento de dominação da classe burguesa, tampouco os arquitetos daquela época reconheceram a natureza funcional do ferro, com o qual o princípio construtivo principia a sua dominação na arquitetura. Nas vigas de sustentação esses construtores imitam colunas pompeianas e nas fábricas eles imitam moradias, assim como mais tarde as primeiras estações ferroviárias tomam por modelo os chalés, "A construção adota o papel de subconsciente." Nem por isso deixa de começar a se impor o conceito de engenheiro, do engenheiro oriundo das guerras da revolução, começando então as lutas entre construtor e decorador, École Polytechnique e École des Beaux-Arts, Com o ferro aparece, pela primeira vez na história da arquitetura, um material artificial. A isto subjaz uma evolução cujo ritmo se acelera no decorrer do século. Isto recebe o decisivo impulso quando fica claro que a locomotiva, com a qual se faziam experiências desde o final dos anos 20, só era utilizável sobre trilhos de ferro. O trilho se toma a primeira peça montável de ferro, sendo o precursor da viga de sustentação.
Evita-se o ferro nas moradias, mas ele é empregado nas galerias, salas de exposições e estações de trem - construções que serviam para fins de trânsito. Simultaneamente se amplia o campo de aplicação arquitetônica do vidro. Os pressupostos sociais para o seu crescente emprego como material de construção só são descobertos, no entanto, 100 anos depois. Ainda na Glasarchitektur [Arquitetura do vidro] de Scheerbart (1914) ele aparece em termos de utopia.

"Cada época sonha a seguinte."
MICHELET. Avenirl Avenir!

À forma de um meio de construção que, no começo, ainda é dominada pela do modo antigo (Marx), correspondem imagens na consciência coletiva em que o novo se interpenetra com o antigo. Essas imagens são imagens do desejo e, nelas, a coletividade procura tanto superar quanto transfigurar as carências do produto social, bem como as deficiências da ordem social da produção. Além disso, nessas imagens desiderativas aparece a enfática aspiração de se distinguir do antiquado — mas isto quer dizer: do passado recente. Tais tendências fazem retroagir até o passado remoto a fantasia imagética impulsionada pelo novo. No sonho, em que ante os olhos de cada época aparece em imagens aquela que a seguirá, esta última comparece conjugada a elementos da proto-história, ou seja, a elementos de uma sociedade sem classes. Depositadas no inconsciente da coletividade, tais experiências, interpenetradas pelo novo, geram a utopia que deixa o seu rastro em mil configurações da vida, desde construções duradouras até modas fugazes.
Tais circunstâncias tornam-se recognoscíveis na utopia de Fourier. Seu impulso basilar reside no surgimento das máquinas. Mas isto não se expressa de modo imediato em seus textos: eles partem tanto da imoralidade da atividade comercial quanto da falsa moral posta a seu serviço. O phalanstere deveria reconduzir homens a condições de vida em que a moral se tornasse desnecessária. Sua organização extremamente complexa aparece como maquinaria. As engrenagens das passions, a intrincada interação das passions mécanistes com a passion cabaliste são primitivas elaborações teóricas feitas, por analogia com a máquina, no  âmbito da psicologia. Essa maquinaria feita de seres humanos produz Cocagne, o país onde corre leite e mel, o primevo símbolo do desejo a que a utopia de Fourier deu um novo alento.
Nas passagens Fourier viu o cânone arquitetônico do phalanstère. A sua reestruturação reacionária por Fourier é significativa: enquanto originariamente elas serviam a finalidades comerciais, com ele se tornam moradias. O phalanstère se toma uma cidade feita de galerias. No rigoroso mundo das formas do Empire, Fourier estabelece o colorido idílio do Biedermeier. O seu brilho se mantém, ainda que mais pálido, até Zola. Este acolhe as idéias de Fourier no seu Travail, assim como em Thérèse Raquin se despede das grandes galerias. Contrapondo-se a CarI Grün, Marx defendeu Fourier, destacando a sua "colossal visão dos homens". Também foi ele quem chamou a atenção para o humor de Fourier. Em seu Levana, Jean Paul é de fato tão afinado com o pedagogo Fourier quanto Scheerbart em seu Glasarchitektur [Arquitetura do vidro] com o utopista Fourier.


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