III. Grandville ou as exposições universais

Exposição Universal no Palais de l'Industrie
em 15 de novembro de 1855.
"Sim, quando o mundo inteiro, de Paris até a China,
Estiver, ó divino Saint-Simon, em tua doutrina,
A idade de ouro há de renascer com todo o esplendor,
Os rios rolarão chá, rolarão  até chocolate,
Suculentos carneiros encherão planícies
E solhas azuis nadarão pelo rio Sena;
Os espinafres virão ao mundo já guisados,
Com gostosos pães torrados postos ao redor;
As árvores produzirão os frutos já em compota,
Açafrão e temperos verdes poderão ser ceifados;
Vinho há de nevar, galinha até há de chover,
E do céu os paios cairão em nosso papo."
LANGLÉ et VANDERDURCH, Louis-Bronze et le Saint-Simonien (Théâtre du Palais-Royal 27 février 1832).

Exposições universais são centro de peregrinação ao fetiche mercadoria. "A Europa se deslocou para ver mercadorias", afirma Taine em 1855. As exposições universais foram precedidas por exposições nacionais da indústria, a primeira das quais ocorre em 1798 no Campo de Marte. Ela decorreu do desejo de "divertir as classes trabalhadoras, tornando-se uma festa de emancipação para elas". Aí, o operariado tem o primado enquanto freguesia. Ainda não se formara o quadro da indústria da diversão. Esse espaço é ocupado pela festa popular. A referida exposição foi inaugurada com o discurso de Chaptal sobre a indústria.
- Os saint-simonianos,que planejavam a industrialização de todo o planeta, acolheram a concepção das exposições universais. Chevalier, a primeira autoridade nesse novo setor, é discípulo de Enfantin e editor do jornal Saint-simoniano Globe. Os saint-simonianos previram a evolução econômica mundial, mas não a luta de classes. Participaram nos empreendimentos industriais e comerciais por volta de meados do século, mas nada fizeram nas questões concernentes ao proletariado.
As exposições universais transfiguram o valor de troca das mercadorias. Criam uma moldura em que o valor de uso da mercadoria passa para segundo plano. Inauguram uma fantasmagoria a que o homem se entrega para se distrair. A indústria de diversões facilita isso, elevando-o ao nível da mercadoria. O sujeito se entrega às suas manipulações, desfrutando a sua própria alienação e a dos outros.
A entronização da mercadoria e da aura de dissipação que a envolve, eis o secreto tema da arte de Grandville. A isso corresponde a defasagem entre o seu elemento utópico e o seu elemento cínico. As suas sutilezas na representação de objetos mortos correspondem ao que Marx chamou de "argueiros teológicos" da mercadoria. Eles se sedimentam marcadamente na "specialité" - designação de uma espécie de mercadoria surgida a essa época na indústria de luxo. Sob o lápis de Grandville, a natureza toda se transforma em "especialidades", em especiarias. Ele as apresenta dentro do mesmo espírito com que o reclame - também esta palavra surgiu naquela época começa a apresentar os seus artigos.
Ele acaba demente.

"Moda: Dona Morte! Dona Morte'"
LEOPARDI. Dialog zwischen der Mode und dem Tod.

As exposições universais constroem o universo das mercadorias. As fantasias de Grandville transferem para o universo o caráter da mercadoria. Elas o modernizam. O anel de Saturno se torna um terraço metálico, no qual os moradores de Saturno espairecem ao anoitecer. A antítese literária dessa utopia gráfica é representada pelos livros do seguidor de Fourier, o naturalista Toussenel. - A moda prescreve o ritual segundo o qual o fetiche mercadoria pretende ser venerado. Grandville estende tal pretensão aos objetos de uso cotidiano e inclusive ao cosmos. Ao levá-Ias até os seus extremos descobre a sua natureza. Ela consiste na contraposição ao orgânico. Relaciona o corpo vivo ao mundo inorgânico. Percebe no ser vivo os direitos do cadáver. Seu nervo vital é o fetichismo,subjacente ao sex-appeal do inorgânico. O culto à mercadoria coloca-o a seu serviço.
Para a Exposição Universal de Paris de 1867, Victor Hugo redige um manifesto "Aos povos da Europa". Os interesses deles foram defendidos antes, e de um modo mais claro, pelas delegações de trabalhadores franceses, das quais a primeira foi enviada para a Exposição Universal de Londres de 1851 e a segunda, com 750 membros, para a de 1862. Esta última foi importante, pois contribuiu indiretamente para que Marx fundasse a Associação Internacional de Trabalhadores. A fantasmagoria da cultura capitalista alcança o seu desdobramento mais brilhante na Exposição Universal de 1867. O Império está no apogeu do seu poder. Paris se afirma como a capital do luxo e da moda. Offenbach prescreve o ritmo da vida parisiense. A opereta é a irônica utopia de um duradouro domínio do capital.


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