Pequenos grupos

por Maria Carolina Gurgacz


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O Espiritismo não deve ser imposto: vem-se a ele porque dele se necessita, e porque ele dá o que não dão as outras filosofias. (Allan Kardec)

Você sabia que Allan Kardec nunca teve a preocupação de fazer prosélitos?
E mais, ele sempre foi a favor de grupos pequenos, de preferência familiares, onde a amizade e a intimidade estivessem presentes, facilitando assim a relação de confiança do grupo. 
Quando Kardec dialoga com o crítico no livro “O que é o Espiritismo” ele deixa muito claro que não tem interesse nenhum nisso, só para nos situarmos citarei a parte do diálogo em que isso fica mais evidente:





“ Visitante: Todavia, se vós chegásseis a me convencer, eu que sou conhecido como um antagonista das vossas idéias, isso seria um milagre eminentemente favorável à vossa causa.
A.K.: Eu o lamento, senhor, mas não tenho o dom dos milagres. Pensais que uma ou duas sessões bastarão para vos convencer? Isso seria, com efeito, um verdadeiro prodígio. Foi-me necessário mais de um ano de trabalho para eu mesmo estar convencido, o que vos prova que, se o sou, não o foi por leviandade. Aliás, senhor, eu não dou sessões e parece que vos enganastes sobre o objetivo de nossas reuniões, já que nós não fazemos experiências para satisfazer à curiosidade de quem quer que seja.
Visitante: Não desejais, pois, fazer prosélitos? 
A.K.: Por que eu desejaria fazer de vós um prosélito se vós mesmo isso não o desejais? Eu não forço nenhuma convicção. Quando encontro pessoas sinceramente desejosas de se instruírem e que me dão a honra de solicitar-me esclarecimentos, é para mim um prazer, e um dever, responder-lhes no limite dos meus conhecimentos. Quanto aos antagonistas que, como vós, têm convicções firmadas, eu não faço uma tentativa para os desviar, já que encontro bastante pessoas bem dispostas, sem perder meu tempo com as que não o são. A convicção virá, cedo ou tarde, pela força das coisas, e os mais incrédulos serão arrastados pela torrente. Alguns partidários a mais, ou a menos, no momento, não pesam na balança. Por isso, não vereis jamais zangar-me para conduzir às nossas idéias aqueles que têm tão boas razões como vós para delas se distanciarem.”

Na Revista Espírita de 1961, no mês de dezembro, Kardec escreve um artigo cujo o título é “Organização do Espiritismo”, pois ele sente a necessidade de fazer alguns esclarecimentos devido ao grande número de pessoas que estavam aderindo ao Espiritismo. Nesse artigo ele também comenta sobre o desejo de alguns de trazer para o Espiritismo novos adeptos. De forma muito sábia e simples ele comenta:

“... aos que têm a coragem de sua opinião, que estão acima das mesquinhas considerações mundanas, diremos que o que têm a fazer se limita a falar abertamente do Espiritismo, sem afetação, como de uma coisa muito simples e muito natural, sem a pregar e, sobretudo, sem buscar nem forçar convicções, nem fazer prosélitos a todo custo. O Espiritismo não deve ser imposto: vem-se a ele porque dele se necessita, e porque ele dá o que não dão as outras filosofias. Convém mesmo não entrar em explicações com os incrédulos obstinados: seria dar- lhes muita importância e os levar a pensar que se depende deles. Os esforços feitos para os  atrair os afastam e, pelo amor-próprio, eles resistem na sua oposição. Eis por que é inútil perder tempo com eles; quando a necessidade se fizer sentir, virão por si mesmos. Enquanto se espera, é preciso deixá-los tranqüilos, satisfeitos no seu ceticismo que, acreditai, muitas vezes lhes pesa mais do que eles manifestam. Porque, por mais que digam, a idéia do nada após a morte tem algo de mais apavorante, de mais pungente que a própria morte.” 
Outra observação muito interessante dele nesse mesmo artigo da Revista Espírita é sobre a importância que ele dá aos grupos menores. Ele acredita que quanto menos pessoas, maior a intimidade, facilitando assim o diálogo, a analise das mensagens recebidas pelos grupos e até o convívio.

“...é sabido que as grandes reuniões são menos favoráveis às belas comunicações e que as melhores são obtidas nos pequenos grupos. É necessário, pois, cuidar de multiplicar os grupos particulares. Ora, como dissemos, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais pela propaganda do que uma sociedade única de quatrocentos membros. Os grupos se formam naturalmente, pela afinidade de gostos, de sentimentos, de hábitos e de posição social; todos ali se conhecem e, como são Reuniões particulares, tem-se liberdade de número e de escolha dos que nela são admitidos.

O sistema da multiplicação dos grupos tem ainda como resultado, conforme o dissemos em várias ocasiões, impedir os conflitos e as rivalidades de supremacia e de presidência. Cada grupo naturalmente é dirigido pelo chefe da casa, ou por aquele que para isso for designado; não há, a bem dizer, presidente oficial, pois tudo se passa em família. O dono da casa, como tal, tem toda a autoridade para manter a boa ordem. Com uma sociedade propriamente dita, há necessidade de um local especial, um pessoal administrativo, um orçamento, numa palavra, uma complicação de engrenagens, que a má vontade de alguns dis-sidentes mal intencionados poderia comprometer.”

É muito claro, não somente nesse artigo, mas em toda a obra a preferência de Allan Kardec por grupos pequenos pelos motivos citados acima por ele mesmo. 

Seria muito interessante, se não apenas no século XIX, mas nos dias de hoje as pessoas cultivassem o hábito de se reunirem entre familiares e amigos para chamar seus entes queridos que já partiram. Isso traria milhões de benefícios a todos e diminuiria a distância entre mortos e vivos.
Creio que esse era um dos principais sonhos de Allan Kardec quando ele organizou o Espiritismo: fazer com que essa relação de encarnados e desencarnados fosse algo natural, algo considerado como um hábito familiar, pois só quem tem essa experiência, pode saber dos benefícios que ela traz. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Como sempre, Kardec fantástico...

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