V. Baudelaire ou as ruas de Paris

Baudelaire

"Tudo para mim se torna alegoria."
 BAUDELAIRE  “Le cygne".


O engenho de Baudelaire, nutrindo-se da melancolia, é alegórico. Pela primeira vez, com Baudelaire, Paris se torna objeto da poesia lírica. Essa poesia não é nenhuma arte nacional e familiar; pelo contrário, o olhar do alegórico a perpassar a cidade é o olhar do estranhamento. É o olhar do flâneur, cuja forma de vida envolve com um halo reconciliador a desconsolada forma de vida vindoura do homem da cidade grande.
O flâneur ainda está no limiar tanto da cidade grande quanto da classe burguesa. Nenhuma delas ainda o subjugou. Em nenhuma delas ele se sente em casa. Ele busca o seu asilo na multidão. Em Poe e Engels encontram-se as primeiras contribuições para a fisionomia da multidão. A multidão é o véu através do qual a cidade costumeira acena ao flâneur enquanto fantasmagoria. Na multidão, a cidade é ora paisagem, ora ninho acolhedor. A casa comercial constrói tanto um quanto outro, fazendo com que a flânerie se torne útil à venda de mercadorias. A casa comercial é a última grande molecagem do flâneur.
Com o flâneur, a intelectualidade parte para o mercado. Pensa que é para dar uma olhada nele; na verdade, porém, já para encontrar um comprador. Nessa fase intermediária, em que ainda tem um mecenas, mas já começa a se familiarizar com o mercado,ela aparece como bohême.  À indefinição de sua posição econômica corresponde a falta de definição de sua posição política. Isto se expressa de modo mais palpável nos conspiradores profissionais, que pertencem de modo total e completo à boheme. O seu campo inicial de trabalho é o exército, mais tarde será a pequena burguesia, ocasionalmente o proletariado. Mas essa camada encontra os seus adversários entre os autênticos líderes do proletariado. O Manifesto comunista acaba com a sua existência política. A poesia de Baudelaire extrai a sua força do pathos da rebelião dessa camada. Alinha-se no lado do associal.  A sua única comunhão sexual ele a realiza com uma prostituta.

“É fácil descer o Averno."
VIRGÍLIO. Eneida.

O típico da poesia de Baudelaire é que as imagens da mulher e da morte se interpenetram numa terceira, a de Paris. A Paris de seus poemas é uma cidade submersa, mais submarina do que subterrânea. Aí estão bem marcados os elementos primevos da cidade - a sua formação topográfica, o antigo leito abandonado do rio Sena. O decisivo em Baudelaire é, no entanto, um substrato social, no "idílio fúnebre"da cidade: o moderno. O moderno é um acento primordial de sua poesia. Com o spleen  ele deixa o ideal em pedaços ("Spleen et Idéal"). Mas é exatamente o moderno que sempre cita a história primeva. Isso ocorre aí através da ambigüidade inerente às relações e aos eventos sociais da época. Ambigüidade é a imagem visível e aparente da dialética, a lei da dialética em estado de paralisação. Essa paralisia é utópica e, por isso, a imagem dialética é uma quimera, a imagem de um sonho. Tal imagem é presentificada pela mercadoria enquanto fetiche puro e simples. Tal imagem é presentificada pelas passagens e galerias, que são tanto casa quanto rua. Tal imagem é presentificada pela prostituta, que, em hipostática união, é vendedora e mercadoria.

"Viajo para conhecer a minha geografia."
Apontamentos de um louco. (MARCEL RÉJA. L'art chez les Fous. Paris, 1907.p. 131.)

O último poema das Flores do mal: "Le voyage". "Ó morte, velha capitã, já é tempo! Alcemos a âncora!" A derradeira viagem do flâneur: a morte. Sua meta: o novo. "Ao fundo do desconhecido para encontrar o novo!" O novo é uma qualidade que independe do valor de uso da mercadoria. É a origem da falsa aparência, que pertence de modo inalienável e intransferível às imagens geradas pelo inconsciente coletivo. É a quintessência da falsa consciência, cujo incansável agente é a moda. Essa falsa aparência de novidade se reflete, como um espelho em outro, na falsa aparência do sempre-igual, do eterno retorno do mesmo. O produto desse processo de "reflexão" é a fantamagoria da "história da cultura", em que a burguesia saboreia a sua falsa consciência. A arte, que começa a pôr em dúvida a sua tarefa e deixa de ser "inlséparable de l'utilité" [inseparável da utilidade] (Baudelaire), precisa fazer do novo o seu valor máximo.O seu arbiter rerum novarum [árbitro das coisas novas] é o snobe. Ele é para a arte o que o dandy é para a moda.
Assim como no século XVII a alegoria se torna o cânone das imagens dialéticas, no século XIX é a nouveauté que exerce o mesmo papel. Do lado dos magasins de nouveautés se colocam os jornais. A imprensa organiza o mercado dos valores espirituais, provocando logo uma alta. Os inconformados protestam contra a entrega da arte ao mercado. Eles se agrupam em tomo da bandeira de l'art pour l'art.  Dessa palavra de ordem se origina a concepção obra de arte total, que tenta impermeabilizar a arte contra o desenvolvimento da técnica. Os ritos de consagração com que a arte é celebrada são o contrapeso da dispersão que caracteriza a mercadoria. Ambas fazem abstração da existência social do homem. Baudelaire sucumbe à sedução de Wagner.

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