ALLAN KARDEC NA CONSTRUÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA

 GILBERTO ALLIEVI – gilbertoa@uol.com.br

                       
Defendemos, em outro artigo, a tese que Allan Kardec é o Autor da Doutrina Espírita afirmando, em conclusão, que denominá-lo de Mestre e Autor não lhe seria prestar nenhum favor, mas sim atestar sua extraordinária missão. Pois bem. Queremos agora apontar alguns elementos demonstrando que a construção do Espiritismo foi obra sua, a ponto de ele mesmo  corrigir erros que  teriam por fonte o próprio mundo espiritual a exemplo da constatação de que a alma se uniria ao corpo “no momento em que a criança vê e respira”. É o que se vê da primeira edição de O Livro dos Espíritos:


             “86 – A alma ou espírito se une ao corpo no momento em que a criança vê a luz e respira. Antes do nascimento a criança só tem vida orgânica sem alma. Ela vive como as plantas, tendo apenas o instinto cego de conservação, comum em todos os seres vivos”.

                       Importante atentar-se ao posicionamento polêmico  de Canuto Abreu, nas Notas do Tradutor  da primeira edição de O Livro dos Espíritos,  de que Allan Kardec, nesta primeira obra teria exercido o papel de um secretário dos Espíritos, ressaltando,  que na segunda e definitiva edição o Mestre se agigantou a  tal ponto que, depois de convencido de um princípio, nem os Espíritos logravam demovê-lo de sua decisão.
                       Nesse foco dessa análise  emerge uma indagação desconfortável: Quem errou? Para os que acham que Allan Kardec foi um codificador de atitude passiva, coletor de textos,  obediente ao ditado dos espíritos, decorre a constatação de que o erro somente poderia ter origem nos Espíritos.
                       Para os que aceitam o caráter de ciência da doutrina, em que Allan Kardec observa, altera, esboça idéias, comenta, reconsidera, deduz, constrói um sistema, redige, muda de opinião, utiliza o princípio da progressividade do ensino, inexiste problema. Pelo contrário, atesta a correção de sua metodologia, já que a travessia pelas hipóteses é o caminho na construção do conhecimento.
                      Outro exemplo de alteração de posicionamento é  o que se refere ao termo possessão. Vemos Kardec, dizendo expressamente: “Assim, para nós, não há possessos, há somente obsidiados, subjugados e fascinados” (LM, 241). Ocorre que posteriormente reconsidera sua posição e passa a admiti-la,  dando-lhe um sentido próprio:  

De posse momentânea do corpo do encarnado, o Espírito se serve dele como se seu próprio fora: fala pela sua boca, vê pelos seus olhos, opera com seus braços, conforme o faria se estivesse vivo. Não é como na mediunidade falante, em que o Espírito encarnado fala transmitindo o pensamento de um desencarnado; no caso da possessão é mesmo o último que fala e obra; quem o haja conhecido em vida, reconhece-lhe a linguagem, a voz, os gestos e até a expressão da fisionomia. A Gênese (XIV, 47)

Onde o fundamento da reconsideração de sua posição?
                  Na Revista Espírita de 1863, no mês de dezembro, Allan Kardec em papel  de homem de ciência e na construção da doutrina nascente dá suas  razões:

Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, embora parcial, de um Espírito encarnado por um Espírito errante. Eis um primeiro fato que o prova, apresentando o fenômeno em toda a sua simplicidade.

                 Reconsidera sua posição de forma direta, demonstrando sua ação em toda a construção da Doutrina, enfatizando o imenso papel da Revista Espírita como um laboratório de ensaio “destinado a sondar a opinião dos homens e dos Espíritos sobre alguns princípios, antes de os admitir como partes constitutivas da doutrina”. (Gênese, Introdução).
           
            O item 283 da primeira edição está assim redigido:
“283 – Onde está escrita a Lei Divina? Na consciência. – O Homem tem então assim consigo mesmo os meios de distinguir o que está bem do que está mal? Sim, quando crê em Deus e quando os quer distinguir. Deus lhe deu a inteligência para discernir um de outro”.
            Compare-se a redação do item 621 da edição atual de O Livro dos Espíritos:

621. Onde está escrita a lei de Deus?
“Na consciência.”
a)      — Visto que o homem traz em sua consciência a lei de Deus, que necessidade havia de lhe ser ela revelada? 
“Ele a esquecera e desprezara. Quis então Deus lhe fosse lembrada.”

           Vê-se que a pergunta e a resposta são idênticas, mas no item que se segue, tanto a pergunta como a resposta são melhor formuladas. Não seria crível imaginar-se, que os Espíritos ditassem uma redação inicial, e depois voltassem no mesmo tema e fizessem “novo ditado”. Parece razoável admitir a primeira edição, como um esboço, que oportunizou  Allan Kardec fazer as alterações necessárias, de acordo com seu critério de avaliação.
            Compare-se agora a redação do item 320, da primeira edição com item de numero 674 da segunda:

“320 – A necessidade de Trabalho é uma Lei da Natureza?
 Sim, e a Civilização te obriga mais ao Trabalho.
“674. A necessidade do trabalho é lei da Natureza?
 O trabalho é lei da Natureza, por isso mesmo que constitui uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque lhe aumenta as necessidades e os gozos.”  
         
            A pergunta é a mesma. A resposta da segunda edição tem conteúdo preciso, sem sub-itens como  os há na primeira edição.
            Uma análise atenta, pontuará,  as grandes alterações e novas construções que Allan Kardec realizou entre a primeira e a segunda edição, ficando fragilizado o argumento, pelos fatos pesquisados, de que Allan Kardec tenha agido passivamente, atendo-se no papel de mero coordenador na transmissão das informações vindas do plano espiritual. Cogita-se que mais de 80% de toda a obra tenha sido escrita diretamente por ele.
            Aos leitores da Revista Espírita Allan Kardec dá como certa a percepção das mudanças que realizou na elaboração da doutrina: Aliás, os leitores assíduos da Revue hão tido ensejo de notar, sem dúvida, em forma de esboços, a maioria das idéias desenvolvidas aqui nesta obra, conforme o fizemos, com relação às anteriores. (Gênese, Introdução).
            Tais fatos, mesmo que ínfimos,  não deixam dúvidas quanto ao papel de Allan Kardec como o autor da construção do Espiritismo. Tal constatação desperta questionamentos contundentes sobre a relativização de seu trabalho que parece permear parte do movimento espírita.

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