Sobre o ensino da Doutrina Espírita: o ponto de vista kardequiano

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Sobre o ensino da Doutrina Espírita: o ponto de vista kardequiano[1]

“A convicção não se impõe.”[2]

Cosme Massi

I – Introdução


Ao utilizarmos a palavra ensino no título acima, o que queremos dizer? Em geral, empregamos a palavra ensinar para caracterizar a tarefa desempenhada pelos professores nas escolas e universidades. Há, portanto, uma estreita ligação entre a profissão de professor e a atividade caracterizada pelo verbo ensinar. Cabe observar, também, que as palavras professor e profissão têm uma origem comum no verbo professar: “preencher as funções inerentes a um cargo ou profissão, ensinar, lecionar, professorar”.
Ensinar, no sentido usual, significa dar aula, lecionar, atividades próprias dos professores. Será esse o sentido que Kardec atribui à palavra ensino, ao fazer referência ao ensino da Doutrina Espírita? Ou ele atribui um sentido especial a esta palavra, quando aplicada ao ensino da Doutrina Espírita?
Ao ensinar, o professor faz uso de determinada metodologia, passa tarefas, controla a freqüência e avalia o desempenho dos alunos. Deve-se fazer o mesmo no ensino da Doutrina Espírita? Deve o Centro Espírita, ao ensinar a Doutrina Espírita, proceder de forma análoga a uma escola ou universidade, controlando a freqüência às aulas e avaliando o desempenho dos alunos?
Essas são as principais questões que responderemos no item II, Sobre o uso de instrumentos formais de controle e avaliação da aprendizagem nos centros espíritas.
Como o tema em epígrafe é um tema próprio da Pedagogia, iremos, no item III, Espiritismo e “Pedagogia Espírita”, fazer uma análise do que, para alguns estudiosos, é denominada uma Pedagogia Espírita. Esse nosso texto não é um texto sobre pedagogia espírita. Ademais, denominar uma proposta com sendo uma Pedagogia Espírita, não faz dela uma legítima pedagogia espírita.
Por fim, no Item IV, A visão kardequiana sobre o ensino da Doutrina Espírita, faremos uma analise do capítulo III, Do Método, primeira parte de O Livro dos Médiuns. Mostraremos que é nesse capítulo que Kardec apresenta sua principal contribuição ao ensino da Doutrina Espírita. As respostas que apresentamos no item II são conseqüências dessa concepção kardequiana do que deve ser o ensino da Doutrina Espírita.

II - Sobre o uso de instrumentos formais de controle e avaliação da aprendizagem nos centros espíritas

A palavra ensino, ao ser aplicada ao ensino da Doutrina Espírita, recebe de Kardec um sentido próprio: a atividade exercida pelos adeptos para convencer ou persuadir os incrédulos acerca dos princípios espíritas, por meio da argumentação.[3]
Embora à primeira vista pareça pequena a diferença com relação à concepção tradicional de ensino, veremos que ela tem uma implicação relevante nas respostas para as questões sobre o uso de instrumentos formais de controle da freqüência e avaliação da aprendizagem: a tarefa de convencer ou persuadir exige um clima de liberdade, de não-constrangimento sob qualquer forma. Não se deve impor a quem se dispõe a fazer um curso de Espiritismo qualquer forma de avaliação de desempenho, quer seja por meio do controle da freqüência às atividades ou de aferições de conhecimento. Não se trata de formar um profissional espírita, que precisaria demonstrar por meio de provas formais o conhecimento adquirido. O ensino espírita deve ser necessariamente informal, por meio apenas da conversação. Nas escolas e universidades formam-se profissionais; no Centro Espírita, jamais isso deverá ocorrer.
O Centro Espírita não pode ser confundido com uma escola ou faculdade do mundo. Nas escolas ou faculdades a avaliação formal da aprendizagem é fundamental. Alguém, para ser considerado um físico, por exemplo, deve demonstrar que conhece bem a Física. O aspecto cognitivo é ali o mais importante. Trata-se de saber se o físico responde corretamente às diversas questões acerca dos temas da Física. No entanto, ninguém pode ser considerado um verdadeiro espírita ao demonstrar que sabe responder corretamente perguntas sobre o Espiritismo. Passar numa prova que meça conhecimentos sobre Espiritismo, além de não ser suficiente para caracterizar o verdadeiro espírita, pode ser enganador, gerando a ilusão de que “agora já sou espírita”, não precisando mais estudar nem viver seus princípios, e de que, em conseqüência, “estou investido de certa autoridade para falar em nome do Espiritismo”.
Cabe ao Centro Espírita deixar claro aos seus freqüentadores que ser espírita ou não é um problema de foro íntimo, de convicção, de avaliação exclusiva da consciência de cada um.[4]
Não compete ao Centro Espírita dizer que alguém já sabe, ou não, Espiritismo. Cabe sim, criar um clima favorável ao estudo, à conversação, à aprendizagem do conhecimento espírita e à vivência dos seus postulados.
Alguém poderá argumentar: “avaliamos a aprendizagem dos nossos freqüentadores para saber se a Casa Espírita está desempenhando bem o seu papel de ensinar Espiritismo. A avaliação é apenas para melhorar a qualidade dos serviços prestados pela Casa Espírita, para selecionar ou preparar melhor os seus trabalhadores, não é para conceder a ninguém o título de espírita”.
O problema com esse argumento é que ele, ao valorizar positivamente os fins, esconde a inadequação dos meios. Claro que se deve avaliar a competência da Casa Espírita no desempenho de suas atividades, inclusive na sua principal tarefa de ensinar Espiritismo. Porém, o caminho mais adequado para fazer isso, sem correr riscos de causar reais prejuízos ao movimento espírita, não é pela avaliação formal da aprendizagem dos freqüentadores e trabalhadores. Este é o caminho de maiores riscos e o menos eficaz. Um caminho mais eficaz e sem conseqüências danosas é, por exemplo, verificar o grau de satisfação dos freqüentadores e trabalhadores por meio da observação e do diálogo. Quando o ensino é bem conduzido, de forma agradável e profunda, a satisfação se torna patente. Basta observar, ouvir e conversar para saber se estamos oferecendo um ensino adequado. Não é preciso nenhuma prova de conhecimentos, ou controle de freqüência, para saber se a palestra foi boa, se as reuniões de estudo estão sendo proveitosas ou se este ou aquele trabalhador está desempenhando a contento o seu trabalho.
Quando não utilizamos instrumentos formais de controle e avaliação, facilitamos o surgimento das verdadeiras competências. Os indivíduos mais aptos se manifestam naturalmente. Surgem as genuínas lideranças. As almas mais valorosas se destacam humildemente. Qualquer processo formal de avaliação favorece o recrudescimento das vaidades humanas. Este tirou dez na prova, aquele tirou três e assim vamos criando um clima desnecessário de comparações inoportunas e de vaidosa competição. Porque o  que se deseja, como objetivo maior do ensino espírita, é que todos estudem o Espiritismo, uns ajudando os outros na compreensão e na vivência dos postulados espíritas, sem necessidade alguma de demonstração formal de quem sabe mais.
Tais métodos formais de avaliação têm ainda outro sério agravante: podem servir para estabelecer indevidas hierarquias nas Casas Espíritas e no movimento espírita como um todo. Hierarquias sobre quem sabe mais, quem pode mais, quem é mais espírita ou quem pode falar em nome do Espiritismo. Já vimos tudo isso acontecer com o cristianismo primitivo. Sabemos muito bem onde isso tudo levou. Não cometamos os mesmos erros.
A melhor e mais duradoura hierarquia é aquela que surge naturalmente da convivência humana, pela força mesma dos legítimos valores do intelecto e da moral, sem depender de escalas formais de aferição.
Não levemos para o Centro Espírita as conseqüências ruins das avaliações formais que ocorrem dentro da academia. Elas ainda são, na academia, dado o seu papel de formadora de profissionais, uma ferramenta necessária. São instrumentos que a academia dispõe para prestar contas à sociedade da qualidade dos profissionais que entrega ao mercado de trabalho. O Centro Espírita, como uma instituição de ensino livre, não profissional, não têm que prestar contas à sociedade da qualidade ou do grau de conhecimento dos seus freqüentadores e trabalhadores. São estes mesmos, freqüentadores e trabalhadores, os únicos responsáveis por sua própria conduta ou conhecimento.
Nem mesmo devem-se utilizar métodos formais de avaliação a pretexto de apenas servir de orientação para os dirigentes espíritas sobre o nível de conhecimento ou o perfil dos freqüentadores das reuniões. Controle de freqüência ou provas formais não servem para aferir a convicção de quem quer que seja. Claro que os dirigentes devem conhecer os freqüentadores da Casa Espírita antes de lhes atribuírem tarefas. Mas esse conhecimento não deve ser obtido por meio de métodos formais de avaliação. O conhecimento deve ser obtido pelos mesmos caminhos que os pais utilizam quando procuram conhecer seus filhos, ou os amigos quando procuram se conhecer uns aos outros. A observação atenta, o diálogo fraterno, a conversação franca e honesta, a convivência em clima de respeito e confiança, nos fazem conhecer uns aos outros de forma rica e profunda. A verdadeira autoridade nasce do relacionamento pessoal e do vigor moral demonstrado no dia-a-dia. Nunca deve ser concedida por instrumentos formais de avaliação.
Além de poder levar a enganos, o uso de metodologias formais de avaliação pode ser desmotivador. A verdadeira motivação para estudar Espiritismo deve partir do foro íntimo de cada um. A motivação deve ser intrínseca. O Espiritismo em si mesmo, pela lógica e beleza de suas teses e argumentos, deve ser capaz de despertar no adepto o desejo de estudá-lo cada vez mais. Devo continuar a estudar o Espiritismo, sempre e sempre, por sua grandiosidade e pelas conseqüências benéficas que consigo extrair dele, não para ir bem numa avaliação sobre Espiritismo. Não devo ser constrangido por outros a estudar Espiritismo, seja para passar de uma turma para outra, seja para receber uma tarefa no Centro Espírita. O sentimento de obrigação deve partir do próprio indivíduo. Quase sempre quando se é obrigado a estudar, por qualquer procedimento exterior à própria consciência, não se adquire a convicção, nem se sente prazer em estudar. Como é desagradável ter que estudar para fazer uma avaliação!
Na academia, a motivação extrínseca, por meio de instrumentos formais de controle da freqüência e avaliação da aprendizagem, é importante. Ela não tem compromisso com o felicidade ou a convicção de ninguém. Seu compromisso é com o conhecimento científico e com a formação profissional. Como físico não precisarei demonstrar minha convicção pelas teorias físicas ou minha felicidade em conhecê-las, basta mostrar que tenho conhecimento da Física e que estou apto para o exercício profissional. Como verdadeiro espírita, preciso estar convicto e feliz.
O Espiritismo, diz Kardec, “é o resultado de uma convicção pessoal, que os cientistas, como indivíduos, podem adquirir, abstração feita da qualidade de cientistas.”[5]
Resumindo, podemos dizer: o uso de instrumentos formais de controle e avaliação da aprendizagem, no ensino da Doutrina Espírita no Centro Espírita, é desnecessário, ineficaz e prejudicial ao estudo da Doutrina Espírita e ao movimento espírita como um todo.
Uma vez que não se devem criar mecanismos externos que obriguem os freqüentadores a estudar, o poder de motivação que os trabalhadores da casa devem possuir é fundamental. Não é possível simular um estudo agradável e prazeroso. Ou o estudo é bom, atraente e profundo, ou os freqüentadores demonstrarão sua insatisfação de várias formas: cochilando, reclamando, faltando muito ou mudando de Centro Espírita.
Nossa responsabilidade como trabalhadores da Casa Espírita é muito grande: fazer da nossa instituição um lugar no qual o Espiritismo seja estudado com seriedade e alegria, sem mecanismos exteriores de motivação. Seriedade a ser demonstrada pelo esforço permanente para estudar, refletir e viver os postulados espíritas. Alegria que deverá surgir do prazer espontâneo que o estudo e a convicção espírita nos conferem.

III - Espiritismo e “Pedagogia Espírita”


Quem faz um estudo sério a partir das obras de Kardec tem um conhecimento claro do que vem a ser a filosofia ou a ciência espírita. Trata-se de uma doutrina que investiga os Espíritos e suas relações como o mundo corporal. As investigações do codificador sobre os Espíritos concluíram que estes nada mais são do que as almas dos homens, dotadas de um corpo semimaterial, o perispírito. A natureza da alma nos é desconhecida, sabemos apenas que difere de tudo que chamamos de matéria. O perispírito é de natureza semimaterial, no sentido de que é capaz de interagir com a matéria propriamente dita, embora ainda não saibamos definir sua natureza material.
Os Espíritos são imortais. Foram criados simples e ignorantes e se instruem nas diversas existências corporais. Como Espíritos, somos hoje o resultado de nossas próprias aquisições no decorrer das diversas existências. Cada nova existência é um novo ponto de partida. Os Espíritos nascem qual se fizeram. Somos os herdeiros de nós mesmos. Embora a vida corporal impeça em parte a memória do passado, expressamos por meio das nossas tendências instintivas as aquisições de outrora. Nossas virtudes, nossos vícios ou nosso caráter são expressões de nossas conquistas.
As dificuldades de aprendizagem neste ou naquele setor das artes ou das ciências são conseqüências das nossas existências anteriores e se expressam como limitações escolhidas ou impostas à nossa roupagem carnal. O corpo físico reflete em parte a estrutura perispiritual conquistada ao longo do tempo. Os débitos contraídos, graças as nossas condutas equivocadas, refletem-se na organização física do Espírito: no períspirito e deste para o corpo físico, significando muitas vezes dificuldades, limitações e necessidades físicas especiais. Problemas de aprendizagem de hoje têm suas origens no passado próximo ou remoto da alma.
Da mesma forma, as facilidades de aprendizagem são frutos das conquistas equilibradas da alma. Tudo o que fizemos retorna para nós mesmos. O gênio de hoje é o resultado do esforço próprio ao longo das diversas vidas. Facilidades de aprendizagem hoje, conquistas de ontem. Sentimentos profundos de amor e fraternidade demonstram o cultivo dedicado desses valores ao longo das existências.
Qualquer tese espírita sobre a aprendizagem humana terá que se apoiar nas conclusões espíritas sobre a anterioridade da alma, sobre como suas conquistas se refletem em seus veículos físicos: o perispírito e o corpo físico. O perispírito, diz Kardec “representa importantíssimo papel no organismo e numa multidão de afecções, que se ligam à fisiologia, assim como à psicologia.” [6]
Todos os nossos estudos atuais sobre a relação ensino-aprendizagem se apóiam essencialmente nas teses materialistas. Consideram o homem como sendo uma tabula rasa, sem conquistas anteriores, cuja capacidade de aprender depende apenas de seus recursos genéticos e do processo educativo que venha a receber. Mesmo aqueles pensadores que eram espiritualistas não estudaram a relação ensino-aprendizagem sobre bases espiritualistas. Supor que somos uma alma e que trazemos idéias inatas não é suficiente para a formulação de uma pedagogia espiritualista, quem dirá espírita!
As doutrinas das idéias inatas e da existência da alma, que têm origem na Grécia antiga, não foram investigadas o suficiente para permitirem a construção sequer de uma psicologia espiritualista. As formulações espiritualistas modernas em nada avançaram.
Os estudos materialistas, estes sim, é que fizeram grandes progressos. Psicologias da aprendizagem materialistas foram bem construídas ao longo dos últimos 200 anos. Os estudos de Freud, Lacan, Winnicott, Skinner, Watson, Wertheimer, Kofka, Lewin, Piaget, Vigotsky e tantos outros construíram as bases das pedagogias modernas.
Temos hoje muitas propostas pedagógicas, todas elas, no entanto, com bases materialistas, ou, quando muito, com uma pequena inspiração espiritualista. Não podem ser chamadas, legitimamente, nem mesmo de pedagogias espiritualistas.
Nossas pedagogias de hoje são, com certeza, pedagogias materialistas. Não é porque não devemos denominá-las de espíritas que não são úteis para auxiliar o homem na compreensão da relação ensino-aprendizagem e no estabelecimento de métodos e técnicas de ensino-aprendizagem.
Precisamos abandonar a pretensão de que atribuir o qualificativo espírita sempre gera algum acréscimo de mérito. Muitas áreas das ciências e das artes são excelentes e não podem, por sua própria natureza, ser qualificadas como espíritas.
Por que atribuir o qualificativo de espírita quando isso não couber? O que ganhamos com isso? Na verdade, todos saímos perdendo pois criamos uma grande confusão com o mau uso da terminologia.
Não devemos, também, ao fazer estudos sobre as contribuições dos mais eminentes pedagogos, à luz da Doutrina Espírita, denominar tais estudos de Pedagogia Espírita. Convenhamos:   analisar uma ciência ou uma teoria qualquer à luz da Doutrina Espírita não nos dá o direito de qualificar tal ciência ou teoria como espírita. Nem mesmo tal análise pode ser vista como uma tentativa de construir uma nova ciência ou teoria espírita.
Uma legítima pedagogia espírita não pode ser construída apenas fazendo remendos nas pedagogias materialistas existentes. A questão é bem mais profunda: trata-se de estabelecer um novo paradigma. Nesse novo paradigma, os princípios espíritas deverão constituir parte essencial: não poderiam ser eliminados sem que o paradigma deixasse de existir. O uso dos princípios espíritas, ou de algumas de suas principais conseqüências, numa proposta de pedagogia espírita não poderá ser aparente ou superficial. Não basta dizer que a proposta teve inspiração nas idéias espíritas ou que seus elaboradores se apoiaram na Doutrina Espírita: algumas das suas principais teses deverão ser conseqüências dos princípios espíritas. Ou se utiliza de fato os princípios espíritas ou não teremos uma legítima pedagogia espírita.
Ao afirmarmos que ainda não temos uma genuína pedagogia espírita, não significa que não é possível construir uma. As contribuições de Kardec, ao elaborar a Doutrina Espírita, serão essenciais na construção desse novo paradigma pedagógico. Temos muito trabalho pela frente. O futuro é promissor.  Que uma legítima pedagogia espírita possa surgir, ampliando nossa compreensão do processo ensino-aprendizagem!
Vamos estudar agora as sensatas conclusões do codificador sobre o ensino da Doutrina Espírita. Como veremos, Kardec fará um bom uso das contribuições das pedagogias de sua época.

IV - A visão kardequiana sobre o ensino da Doutrina Espírita

           
Faremos agora uma análise detalhada do capítulo III, Do Método[7], apresentando a concepção de Kardec sobre o ensino da Doutrina Espírita. O capítulo é dividido em vários itens, numerados de 18 a 35. Sempre que fizermos citações utilizaremos esses números para a localização no texto.
Para facilitar o entendimento do pensamento desenvolvido por Kardec ao longo do capítulo, apresentamos, inicialmente, uma leitura tradicional do processo ensino-aprendizagem. É a partir dessa leitura que o capítulo será examinado.
No processo de ensino-aprendizagem podemos destacar pelos menos quatro elementos fundamentais: o objeto de ensino ou de aprendizagem, com seus objetivos; o indivíduo que aprende; o sujeito que ensina ou orienta a aprendizagem e o método de ensino ou de aprendizagem. Esses quatro elementos são interdependentes. O sujeito que ensina ou orienta a aprendizagem deve dominar o objeto de ensino, saber dos objetivos a serem alcançados, conhecer o perfil do aprendiz e, a partir daí, estabelecer o método mais adequado para levar o aprendiz a alcançar os objetivos pretendidos com o objeto de estudo. Essa é uma recomendação de bom senso de qualquer pedagogia prática.
Kardec faz ao longo do capítulo um bom uso desses quatro elementos. O objeto de ensino ou aprendizagem é o Espiritismo, o objetivo principal é levar à convicção, o aprendiz é o incrédulo, o sujeito que ensina ou orienta a aprendizagem é o adepto ou crente e o método de ensino é o diálogo, a conversação, para persuadir os incrédulos.
Percorreremos agora todo o capítulo III, para apresentar uma análise detalhada de cada um desses quatro elementos.
Inicialmente, item 18, o objetivo principal do capítulo é definido: “Vejamos, então, de que maneira será melhor se ministre o ensino da Doutrina Espírita, para levar com mais segurança à convicção.”
O objeto de ensino é claramente definido: a Doutrina Espírita. O principal objetivo deste ensino, na Casa Espírita, é levar à convicção. Não se trata, portanto, de levar o aprendiz apenas a conhecer o Espiritismo, mas, principalmente, de torná-lo espírita, isto é, de produzir nele a convicção espírita.
Embora utilize a palavra ensino, no pequeno trecho citado, o codificador demonstra uma certa cautela com o sentido que poderá ser dado a ela pelos leitores: “Não se espantem os adeptos com esta palavra –– ensino.” 
Por que será que Kardec faz essa afirmativa? O que poderia levar os adeptos a ficarem espantados? Talvez porque a palavra ensino esteja associada diretamente ao que se faz na escola ou na academia. Nelas, quem ensina ou orienta a aprendizagem é o professor. Seu objetivo principal não é levar o aluno à convicção. Sua tarefa é ensinar uma ciência, uma técnica ou uma arte, ou formar um profissional, não fazer prosélitos.
Para deixar claro que não se trata do ensino tal como se faz numa escola, ele acrescenta: “Não constitui ensino unicamente o que é dado do púlpito ou da tribuna. Há também o da simples conversação. Ensina todo aquele que procura persuadir a outro, seja pelo processo das explicações, seja pelo das experiências.”
A referência ao “púlpito” ou à “tribuna” é uma alusão ao que se faz na escola ou na academia. O ensino da Doutrina Espírita, na Casa Espírita, não deve ser esse tipo de ensino professoral, trata-se apenas da simples conversação, pois seu objetivo é a convicção, não a formação profissional. A convicção é o resultado de uma decisão pessoal, que não precisa ser aferida.
É por isso que, ao fazer uso do esquema clássico sobre os quatro principais elementos do processo ensino-aprendizagem, Kardec não usa as palavras professor e aluno, mas utiliza as palavras adepto (ou crente) e incrédulo. Essas palavras representam adequadamente o objetivo principal do ensino espírita, na Casa Espírita: fazer de um incrédulo um crente ou adepto, alguém que adquiriu, por si mesmo, a convicção espírita. Se utilizasse as palavras mais comuns do esquema clássico, professor e aluno, poderia levar os adeptos a se equivocarem quanto ao seu verdadeiro papel e assim a confundir a Casa Espírita com uma escola ou academia.
            Resumindo este item 18, apresentamos uma síntese do que deve ser a concepção de ensino espírita, na Casa Espírita: o ensino da Doutrina Espírita é a atividade exercida pelos adeptos para convencer ou persuadir os incrédulos acerca dos princípios espíritas, por meio da conversação e do diálogo.
            No item 19, Kardec argumenta sobre a importância de se conhecer o perfil dos incrédulos. Quem ensina deve levar em consideração o conhecimento e a crença do aprendiz. Em se tratando de Espiritismo, o adepto deve saber o que o aprendiz pensa a respeito da alma: se ele acredita ou não que há, no homem, algo mais que um corpo material, ou seja, se ele é materialista ou espiritualista. O adepto deve ensinar a partir daquilo que o incrédulo já sabe, pois: “Todo ensino metódico deve partir do conhecido para o desconhecido.”
Se o incrédulo é materialista, o caminho é um. Se ele é espiritualista, o caminho é outro. Por isso, o adepto deve conhecer muito bem o perfil do incrédulo. O método de ensino dependerá muito deste conhecimento: “Antes, pois, de tentarmos convencer um incrédulo, mesmo por meio dos fatos, cumpre nos certifiquemos de sua opinião relativamente à alma, isto é, cumpre verifiquemos se ele crê na existência da alma, na sua sobrevivência ao corpo, na sua individualidade após a morte. Se a resposta for negativa, falar-lhe dos Espíritos seria perder tempo. Eis a regra.”
Demonstrada a importância de se conhecer o perfil do aprendiz ou incrédulo, serão apresentados, nos itens 20 a 26, os diversos tipos de incrédulos. Começando por aqueles incrédulos que negam de forma absoluta a existência da alma até aqueles que a aceitam de alguma forma:
  • Item 20 – Os materialistas por sistema – Negam de forma absoluta e sistemática a existência da alma;
  • Item 21 – Os materialistas por falta de coisa melhor – A crença na alma não é de todo nula, há um gérmen latente. É o náufrago a quem se lança uma tábua de salvação;
  • Item 22 – Os incrédulos de má-vontade – Fecham os olhos para não ver e tapam os ouvidos para não ouvir;
  • Item 23 – Os incrédulos por interesse ou de má-fé – Não há o que deles dizer, como não há com eles o que fazer;
  • Item 24 – Os incrédulos por pusilanimidade, por escrúpulos religiosos, por orgulho, por espírito de contradição, por negligência, por leviandade, etc.;
  • Item 25 – Os incrédulos por decepções – Os que passaram de uma confiança exagerada à incredulidade. É o resultado de incompleto estudo do Espiritismo e de falta de experiência; e
  • Item 26 – Os incertos – Há uma vaga intuição das idéias espíritas. Não lhes falta aos pensamentos senão serem coordenados e formulados.

Examinados os diversos tipos de incrédulos, Kardec passa a investigar o perfil dos crentes ou adeptos.
Como o objetivo principal do ensino da Doutrina Espírita é fazer com que os incrédulos se tornem adeptos, é importante saber que tipo de crente podemos ser. O nosso sucesso ou fracasso no ensino da Doutrina Espírita depende do tipo de adepto que somos. Alguns adeptos são mais aptos que outros para a tarefa de persuadir.
Os crentes, ou adeptos, são divididos em dois grandes grupos:
1)      Os crentes sem um estudo direto (item 27)
Os espíritas sem o saberem – “Sem jamais terem ouvido tratar da Doutrina Espírita, possuem o sentimento inato dos grandes princípios que dela decorrem.”

2)      Os crentes com um estudo direto (item 28)
Os espíritas experimentadores – “Os que crêem pura e simplesmente nas manifestações. O Espiritismo é apenas uma ciência de observação.”
Espíritas imperfeitos – “Os que vêem mais do que os fatos. Compreendem a parte filosófica. Admiram a moral, mas não a praticam.”
Os verdadeiros espíritas – “Os que não se contentam com admirar a moral espírita, que a praticam e lhe aceitam todas as conseqüências.”
Os espíritas exaltados – “Os que possuem confiança demasiadamente cega e freqüentemente pueril, no tocante ao mundo dos espíritos... O entusiasmo, porém, não reflete, deslumbra. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo.”

Agora só falta investigar o último dos quatro elementos principais do processo ensino-aprendizagem: o método de ensino. Essa investigação é feita nos itens de 29 a 35.
Podemos sintetizar dizendo que os meios de convencer, de ensinar ou de aprender devem se apoiar na seguinte estratégia: ensinar de acordo com o perfil do aprendiz; não perder tempo com um incrédulo obstinado; começar pela teoria; utilizar-se da conversação, do diálogo, da persuasão:
Item 29 – O critério geral: “Os meios de convencer variam extremamente, conforme os indivíduos. O que persuade a uns nada produz em outros; este se convenceu observando algumas manifestações materiais, aquele por efeito de comunicações inteligentes, o maior número pelo raciocínio.” Uma explicação prévia da teoria “produz o efeito de destruir as idéias preconcebidas e de mostrar, senão a realidade, pelo menos a possibilidade da coisa, que, assim, é compreendida antes de ser vista. Ora, desde que se reconhece a possibilidade de um fato, três quartos da convicção estão conseguidos.”
Item 30 – “Convirá se procure convencer a um incrédulo obstinado?... Com relação ao que se não convenceu pelo raciocínio, nem pelos fatos, a conclusão a tirar-se é que ainda lhe cumpre sofrer a prova da incredulidade... Dirigi-vos, portanto, aos de boa-vontade, cujo número é maior do que se pensa, e o exemplo de suas conversões, multiplicando-se, mais do que simples palavras, vencerá as resistências.”
Item 31 – Começar pela teoria, por quê? Porque há problemas em se começar pelos fenômenos e vantagens em se começar pela teoria: [8]
Problemas em se começar pelos fenômenos
-          Não é possível fazer um curso de Espiritismo experimental, como se faz um curso de Física ou de Química. “Nas ciências naturais, opera-se sobre a matéria bruta, que se manipula à vontade, tendo-se quase sempre a certeza de poderem regular-se os efeitos. No Espiritismo, temos que lidar com inteligências que gozam de liberdade e que a cada instante nos provam não estar submetidas aos nossos caprichos. Cumpre, pois, observar, aguardar os resultados e colhê-los à passagem.”
-          “Acrescentemos mais que, para serem obtidos [os fenômenos], precisa se faz a intervenção de pessoas dotadas de faculdades especiais e que estas faculdades variam ao infinito, de acordo com as aptidões dos indivíduos. Ora, sendo extremamente raro que a mesma pessoa tenha todas as aptidões, isso constitui uma nova dificuldade, porquanto mister seria ter-se sempre à mão uma coleção completa de médiuns, o que absolutamente não é possível.”

Vantagens em se começar pela teoria

-          “Aí todos os fenômenos são apreciados, explicados, de modo que o estudante vem a conhecê-los, a lhes compreender a possibilidade, a saber em que condições podem produzir-se e quais os obstáculos que podem encontrar. Então, qualquer que seja a ordem em que se apresentem, nada terão que surpreenda.”
-          Outra vantagem: “a de poupar uma imensidade de decepções àquele que queira operar por si mesmo. Precavido contra as dificuldades, ele saberá manter-se em guarda e evitar a conjuntura de adquirir a experiência à sua própria custa.”
-          Item 32 – “Ainda outra vantagem apresenta o estudo prévio da teoria -  a de mostrar imediatamente a grandeza do objetivo e o alcance desta ciência... Quem quer que reflita compreende perfeitamente bem que se poderia abstrair das manifestações, sem que a Doutrina deixasse de subsistir. As manifestações a corroboram, confirmam, porém, não lhe constituem a base essencial. O observador criterioso não as repele; ao contrário, aguarda circunstâncias favoráveis, que lhe permitem testemunhá-las.”

“Começar pela teoria”, esse deve ser o caminho. No entanto, para que não se perca de vista a importância dos fenômenos, Kardec esclarece, nos itens 33 e 34, o verdadeiro papel dos fenômenos e sua interação com a teoria:

 

A importância dos fenômenos e o seu verdadeiro papel

Item 33 – “Demais, fora inexato dizer-se que os que começam pela teoria se privam do objeto das observações práticas. Pelo contrário, não só lhes não faltam os fenômenos, como ainda os de que eles dispõem maior peso mesmo têm aos seus olhos, do que os que pudessem vir a operar-se em sua presença. Referimo-nos aos copiosos fatos de manifestações espontâneas... A teoria lhes vem dar a explicação. E afirmamos que esses fatos têm grande peso, quando se apóiam em testemunhos irrecusáveis, porque não se pode supô-los devidos a arranjos, nem a conivências.”
Item 34 – “Singularmente se equivocaria, quanto à nossa maneira de ver, quem supusesse que aconselhamos se desprezem os fatos. Pelos fatos foi que chegamos à teoria...Dizemos apenas que, sem o raciocínio, eles não bastam para determinar a convicção; que uma explicação prévia, pondo termo às prevenções e mostrando que os fatos em nada são contrários à razão, dispõe o indivíduo a aceitá-los...Assim, pois, a inteligência prévia dos fatos não só as coloca em condições de se aperceberem de todas as anomalias, mas também de apreenderem um sem-número de particularidades, de matizes, às vezes muito delicados, que escapam ao observador ignorante. Tais os motivos que nos forçam a não admitir, em nossas sessões experimentais, senão quem possua suficientes noções preparatórias, para compreender o que ali se faz, persuadido de que os que lá fossem, carentes dessas noções, perderiam o seu tempo ou nos fariam perder o nosso.”


Terminada a apresentação dos quatros elementos principais do processo de ensino- aprendizagem, o codificador sugere uma ordem de leitura de suas principais obras.
Item 35 – Ordem de leitura sugerida por Kardec[9]:
-          O que é  o Espiritismo? – “..contém sumária exposição dos princípios da Doutrina Espírita, um apanhado geral desta, permitindo ao leitor apreender-lhe o conjunto dentro de um quadro restrito. Em poucas palavras ele lhe percebe o objetivo e pode julgar do seu alcance.”
-          O Livro dos Espíritos – “Contém a doutrina completa, como a ditaram os próprios Espíritos.”
-          O Livro dos Médiuns – “É um guia, tanto para os médiuns, como para os evocadores,  e o complemento de O Livro dos Espíritos.”
-          A Revue Spirite

A sugestão de leitura proposta demonstra, uma vez mais, o bom senso de Kardec.
Primeiramente, deve-se começar por uma visão geral da doutrina, para se ter uma idéia completa de todos os seus princípios. Depois, deve-se aprofundar cada um desses princípios; para isso não há obra melhor do que O Livro dos Espíritos. A seguir, estudar todas as outras obras complementares.
As obras de Kardec, na ordem sugerida por ele, são as mais indicadas para serem utilizadas pelos grupos de estudos. Não vale a pena substituir a leitura direta dessas obras pela leitura de qualquer outro material didático já produzido. Os textos kardequianos são claros, didáticos e profundos. Somente pelo estudo dessas obras se pode ter uma visão completa, não distorcida, da Doutrina Espírita.
E por fim:
“Os que desejem tudo conhecer de uma ciência devem necessariamente ler tudo o que se ache escrito sobre a matéria, ou, pelo menos, o que haja de principal, não se limitando a um único autor. Devem mesmo ler o pró e o contra, as críticas como as apologias, inteirar-se dos diferentes sistemas, a fim de poderem julgar por comparação... Não nos cabe ser o juiz e parte e não alimentamos a ridícula pretensão de ser o único distribuidor da luz. Toca ao leitor separar o bom do mau, o verdadeiro do falso.”

Fizemos nossa análise do capítulo Do Método procurando extrair apenas as contribuições pedagógicas de Kardec para o ensino da Doutrina Espírita. A partir dessas contribuições concluímos que não se deve confundir o ensino praticado numa casa espírita com o ensino que ocorre numa escola ou faculdade. O ensino do Espiritismo, no centro espírita, tem por objetivo a convicção e, por isso, não se deve fazer uso de métodos formais de controle da freqüência e avaliação da aprendizagem.
Esse capítulo, no entanto, é muito rico em outros aspectos.  Aqueles que desejarem conhecer uma leitura diferente dele que explora os aspectos epistemológicos, recomendamos o artigo, já citado: A excelência metodológica do Espiritismo.


[1] Quero agradecer a Silvio Seno Chibeni pelos comentários feitos a este trabalho.
[2] O Livro dos Espíritos, item 841.
[3] Demonstraremos essa afirmação no item IV abaixo.
[4] Para uma análise do que é ser espírita e dos tipos de adeptos que serão abordados mais adiante, veja o artigo “Ser espírita”, de Silvio Seno Chibeni, publicado no jornal Mundo Espírita, julho de 2003, caderno especial.
[5] O Livro dos Espíritos, Introdução, item VII.
[6] A Gênese, capitulo I, Caráter da Revelação Espírita, item 39.
[7] Allan Kardec, O Livro do Médiuns, primeira parte, capítulo III, Do Método.
[8] Para uma análise das relações teoria-fenômenos, do ponto de vista epistemológico, veja o artigo: Chibeni, S. S. “A excelência metodológica do Espiritismo”, Reformador, novembro de 1988, pp. 328-333, e dezembro de 1988, pp. 373-378. Reproduzido em Mundo Espírita, novembro 1999, encarte especial.
[9] Kardec não faz menção às outras obras completares porque esse capítulo foi escrito antes da existência delas.

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