15. As descrições do mundo espiritual e o problema da colher

Quando Allan Kardec estuda os fenômenos mediúnicos e trava contato com diversos Espíritos que respondem suas questões através dos médiuns, o mundo espiritual não era nenhuma novidade.
Como já vimos em posts passados, Swedenborg foi o primeiro, na era contemporânea, a apresentar descrições deste mundo invisível com ares de cientificidade. 
No caso dos magnetistas (e Kardec era um deles) os fenômenos de sonambulismo, principalmente no estágio de êxtase, já haviam produzido diversas descrições do mundo espiritual. Cahagnet, com o Magnetismo Espiritualista, publicou diversas obras onde seus diálogos com extáticos apresentam um mundo espiritual com Espíritos de diverso vestuário, com ocupações muitas vezes semelhantes às dos homens, com objetos semelhantes aos da Terra, etc.




Obviamente um mundo espiritual, onde a semelhança com o mundo material é quase total, gera muitos problemas. Gabriel Dellane¹ nos relata um desses problemas. Como os extáticos estudados por Cahagnet descreviam Espíritos com roupas semelhantes às que usavam em vida, nada mais justo do que os estudiosos da época fazerem as seguintes questões: Qual o material usado para confeccionar as roupas? Quem confeccionou as roupas? Essas roupas se desgastam?
Essas questões foram bem respondidas anos mais tarde por Allan Kardec, no que diz respeito às manifestações dos Espíritos aos homens. Logo discorreremos sobre este ponto. Mas Allan Kardec não defende um mundo Espiritual organizado em termos de necessidades, utensílios e divisões de trabalho como o nosso.


Vejamos um problema que chamarei o problema da colher:
Imaginemos uma colher no mundo espiritual. Para que serviria? Ou melhor, vamos pensar para que serve uma colher no mundo material? Para alimentar-se, inicialmente (se não estivermos falando de uma colher para beber um xarope, ou de uma “colher de pedreiro”). A colher é um utensílio feito como resposta a uma necessidade. Necessito de alimentos, tenho uma sopa à minha frente, uso uma colher para levá-la à boca.
Aqui a tese kardequiana sobre o mundo espiritual entra em choque com a tese de muitos extáticos.
Primeiro, o Espírito não precisa comer. Ele não tem os órgãos físicos e suas necessidades. Obviamente não entraremos aqui no nível das sensações, ou das aparências, mas no das necessidades. Não precisando comer, não precisa de alimento (logo, de abatedouros, indústrias alimentícias, supermercados, vale-refeição, nutricionistas, chefs de cozinhas, etc.). Sem alimentos, sem utensílios feitos para a alimentação. Nem colheres, nem fábricas de colheres, nem vendedores de colheres...
Nisso já teríamos dificuldades de manter as analogias com o mundo material. Milhões de indivíduos na Terra vivem em função dos alimentos. Alguns produzindo, todos consumindo.
No mundo espiritual não teríamos a necessidade de descanso físico. Nada de camas, cadeiras, bancos, esteiras, redes, travesseiros, colchões...
Mas os relatos de coisas assim, no mundo espiritual são comuns. Quais as possíveis explicações?

1. Quanto a roupas, utensílios e a própria aparência dos Espíritos, temos a explicação voltada à necessidade de confirmação da identidade. Muitos Espíritos aparecem com roupas, traços “físicos” e utensílios (caixa de rapé, carro de bois) para marcarem sua identidade a partir dessas coisas. Não seria uma realidade constante, mas criações mentais do Espírito que se extinguiriam, como todo pensamento.  

2. Existe algo que Allan Kardec chamou de “perturbação”. Como vimos no post anterior é um período em que o Espírito após a morte do seu corpo, ainda se identifica muito com a matéria, muitas vezes acreditando estar ainda vivo. Alguns espíritos mergulhados em seus vícios, acreditam ter nas mãos suas moedas, estar cobertos de diamante, ter dinheiro, cigarros, etc. Essa crença leva a uma produção fluídica

3. A mente do extático interferindo em suas visões. Muitos extáticos descreviam um mundo espiritual marcado por suas crenças. Chegavam mesmo a descrever o que chamavam de Céu ou Inferno. Anjos alados também eram descritos.

Então temos três linhas explicativas para as descrições feitas por alguns extáticos. Repetindo: criações de Espíritos para confirmarem suas identidades nas aparições; criações de Espíritos inferiores em estágio de perturbação; interferência mental do extático.
Trataremos uma a uma, menos a de número 3 que já foi trabalhada anteriormente,  a seguir.



¹ A Alma é Imortal.



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