Dados biográficos de Jan Huss publicados na Revue


João Huss nasceu a 6 de julho de 1373 sob o reinado do imperador Carlos IV e sob o pontificado de Gregório XI, cerca de cinco anos antes do grande cisma do Ocidente, que se pode encarar como uma das sementes do hussitismo. A História nada nos ensina do pai e da mãe de João Huss, senão que eram criaturas probas, mas de origem obscura. Segundo o costume da Idade Média, João Huss, ou melhor, João de Huss, foi assim chamado porque nasceu em Huissinecz, pequeno burgo situado ao sul da Boêmia, no distrito de Prachen, nas fronteiras da Baviera. 
Seus pais tiveram o maior cuidado com sua educação. Tendo perdido o pai na infância, sua mãe lhe ensinou os primeiros elementos de gramática em Hussinecz, onde havia uma escola. Depois o levou a Prachen, cidade do mesmo distrito, onde havia um colégio ilustre. Logo fez grandes progressos nas letras e atraiu a amizade dos mestres por sua modéstia e docilidade, conforme testemunho que a Universidade de Praga lhe prestou após sua morte. Quando estava bastante adiantado para ir a Praga, sua própria mãe o conduziu. Contam que esta pobre mulher, cheia de zelo pela educação do filho, levava consigo um ganso e um bolo, para presenteá-los ao seu regente. 37 Mas, infelizmente, o ganso fugiu no caminho, de sorte que, para seu grande pesar, ela não tinha senão o bolo para dar de presente ao mestre. Magoada profundamente por este pequeno incidente, orou várias vezes, pedindo a Deus que se dignasse ser o pai e o preceptor de seu filho.
Quando ele adquiriu em Praga sólidos conhecimentos em literatura, os professores, nele notando muita inteligência e vivacidade de espírito, bem como uma grande atividade pela Ciência, julgaram por bem matriculá-lo no capítulo da Universidade que tinha sido fundada em 1247 pelo imperador Carlos VI, rei da Boêmia, e confirmada pelo papa Clemente VI.
Afastado das diversões da juventude, João Huss empregava suas horas vagas para boas leituras. Lia com prazer sobretudo as dos antigos mártires. Conta-se que um dia, lendo a lenda de São Lourenço, quis experimentar se teria a mesma coragem desse mártir, pondo o dedo no fogo; mas acrescentam que logo o retirou, muito descontente com a sua fraqueza, ou que um de seus camaradas a isto se opôs.
Seja como for, ao que parece ele não fazia mal em se preparar para o fogo. Aliás, quando quis fazer este ensaio, já estava bastante avançado em idade para que o edito de 1276, pelo qual Carlos VI condenava os heréticos ao fogo, de algum modo lhe desse o pressentimento do que devia acontecer com ele.
Um grande obstáculo se opunha ao ardor que tinha João Huss de se instruir: a pobreza. Neste apuro, aceitou a oferta que lhe fez um professor, cujo nome é ignorado, de tomá-lo ao seu serviço e de lhe fornecer os livros e tudo o que era necessário para prosseguir seus estudos. Embora essa situação fosse bastante humilhante, ele a achava feliz tendo em vista o seu objetivo, e a aproveitou tão bem que satisfez, ao mesmo tempo, seu mestre, cuja amizade ganhou, e sua paixão pelas letras. 
João Huss fez progressos consideráveis na Universidade; por seus livros, parece que era versado na leitura dos Pais gregos e latinos, pois que os cita muitas vezes. Pode-se julgar por seus comentários que sabia grego e tinha noções de hebreu.
Com cerca de vinte anos, conquistou o título de bacharel e, dois anos depois, o de mestre em artes. Não se sabe quem foram seus mestres, salvo o que ele próprio diz de Stanislas Znoima, que, mais tarde, se tornou um de seus maiores adversários. Ordenou-se sacerdote em 1400 e, no mesmo ano, foi nomeado pregador da capela de Belém. Foi aí que teve oportunidade de exercitar os seus talentos, querido por uns, suspeito e odiado por outros, admirado por todos. Na mesma época foi nomeado confessor de Sofia da Baviera, rainha da Boêmia. 
Foi no período de 1403 a 1408 que João Huss, juntamente com Jerônimo de Praga, estudou as obras de Wyclif e de Jacobel e começou a se separar do ensino ortodoxo. Desde começo, um certo número de discípulos que sempre lhe foram, mantiveram-se ligados a ele. 
No dia 22 de outubro de 1409 foi nomeado reitor da Universidade de Praga, desobrigando-se desse novo encargo com os aplausos de todo o mundo. Até então, não havia aprovado as doutrinas de Wyclif senão em termos vagos e com cautela. Nessa época começou a falar mais abertamente de suas crenças pessoais.
Entre suas obras anteriores ao concílio de Constança, nota-se o Tratado da Igreja, de onde foram tirados todos os argumentos para sua condenação. Durante o seu cativeiro, consagrou-se especial e inteiramente à execução de suas últimas obras filosóficas. Foi assim que fez os manuscritos do Tratado do casamento, do Decálogo, do amor e do conhecimento de Deus, da Penitência, dos três inimigos do homem, da ceia do Senhor, etc. 
Todos os historiadores contemporâneos, mesmo entre os seus adversários, rendem homenagem à pureza de sua vida: “Era, dizem, um filósofo, de grande reputação pela regularidade de seus costumes, sua vida rude, austera e inteiramente irrepreensível, sua doçura e sua afabilidade para com todos; era mais sutil que eloqüente, mas sua modéstia e seu grande espírito conciliador persuadiam mais que a maior eloqüência.”
Não nos permitindo a falta de espaço que nos estendamos tanto quanto desejaríamos, limitar-nos-emos a algumas citações características. Longe de temer a morte, por vezes parecia aguardá-la com impaciência, como o termo de seus trabalhos e o início da recompensa. Tinha o hábito de dizer: “Ninguém é recompensado na outra vida mais do que mereceu nesta, e que os modos e locais de recompensa variavam segundo os méritos.” Aos que queriam convencê-lo a se retratar e abjurar, varias vezes deu esta resposta digna de nota: “Abjurar é deixar um erro que se cometeu; se alguém me ensinar algo melhor do que avancei, estou pronto a fazer de bom grado o que exigis de mim.”
Terminamos pelo testemunho da Universidade de Praga, dado em seu favor após a sua morte: “Dizem que ele tinha, neste terreno, um espírito superior, uma penetração viva e profunda; ninguém era mais apto para escrever de um jacto, nem dar respostas mais contundentes às objeções. Ninguém tinha um zelo mais veemente, nem melhor discernimento; jamais o pilharam em erro, a não ser na opinião dos maus, que o atacaram ferozmente por causa de seu amor pela justiça. Ó homem de virtude inestimável, de brilhante santidade, de humilde e piedade inimitáveis, de desinteresse e de caridade inacreditáveis! Desprezava as riquezas no último grau, abria o coração aos pobres; muitas vezes era visto de joelhos, ao pé do leito dos doentes; vencia as naturezas mais indomáveis pela doçura e levava os impenitentes a se desfazerem em lágrimas; tirava das Santas Escrituras, sepultada no esquecimento, motivos novos e poderosos, a fim de exortar os eclesiásticos viciosos a voltarem atrás em seus desregramentos e a cumprirem os compromissos de seu caráter, e para reformar os costumes de todas as ordens com base na Igreja primitiva. 
“Os opróbrios, as calúnias, a fome, a infâmia, mil torturas cruéis e, enfim, a morte que padeceu, não só com paciência, mas mesmo com um semblante tranqüilo e risonho, tudo isto é o testemunho autêntico de uma virtude a toda prova, de uma coragem, de uma fé e de uma piedade inabaláveis. Julgamos por bem expor todas estas coisas aos olhos da cristandade, a fim de impedir que os fiéis, enganados pelas falsas imputações, maculem o conceito deste homem justo, nem dos que seguem sua doutrina.”

37 É notável que Huss, em boêmio, significa ganso. Parece que a pátria de João Huss foi assim chamada porque aí os pássaros são abundantes. 



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