13. Dificuldades na linguagem para expressar o mundo espiritual

Nas obras kardequianas não foram poucas as vezes em que os Espíritos apresentam a dificuldade de expressar suas idéias.
Afirmando que no mundo espiritual se comunicam pelo pensamento, a clareza do fundo não tem as armadilhas da forma, comuns no cotidiano da linguagem humana.
Traduzir na linguagem humana o que vivem, sentem e produzem quase sempre é tarefa realizada sem total êxito.

A conhecida passagem de O Livro dos Espíritos que trata da natureza de Deus define bem o problema: 
"Definição incompleta. Pobreza da linguagem dos homens, insuficiente para definir o que está acima de sua inteligência."¹
Ainda em relação a Deus, no item 13, ao apresentar um conjunto de atributos que seriam da Divindade, Allan Kardec recebe uma interessante resposta, que citaremos aqui o trecho que nos interessa para este post:
"Sabei, porém, que há coisas que estão acima da inteligência do homem mais inteligente, as quais a vossa linguagem, restrita às vossas idéias e sensações, não tem meios de exprimir."
Antes do leitor indagar se é somente em relação a Deus que o problema da linguagem se apresenta, recordemos outra passagem do livro citado, agora tratando-se da questão do espírito (item 23):
a) – Qual a natureza íntima do espírito?                              “Não é fácil analisar o espírito com a vossa linguagem. Para vós, ele nada é, por não ser palpável. Para nós, entretanto, é alguma coisa. Ficai sabendo: coisa nenhuma é o nada e o nada não existe.”
E no item 28:
"As palavras pouco nos importam. Compete-vos a vós formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos.”
 E ainda, no item 82:
Como se pode definir uma coisa, quando faltam termos de comparação, e com uma linguagem deficiente? Pode um cego de nascença definir a luz?
Allan Kardec, comentando o item 139, escreve:
...os Espíritos falaram de acordo com o modo por que aplicavam a palavra e com as idéias terrenas de que ainda estavam mais ou menos imbuídos. Isto resulta da deficiência da linguagem humana, que não dispõe de uma palavra para cada idéia, donde uma imensidade de equívocos e discussões. Eis por que os Espíritos superiores nos dizem que primeiro nos entendamos acerca das palavras.
É devido a pobreza da linguagem humana para tratar dessa realidade acima dos nossos sentidos corporais que surgem alguns problemas de comunicação entre os homens e os Espíritos. Por terem que, necessariamente, lançar mão de comparações, figuras de linguagem, o risco de tomar como verdade uma alegoria é bem grande.
No item 143, a resposta dos Espíritos tem esta informação:
...os próprios Espíritos esclarecidos podem exprimir-se em termos diferentes, cujo valor, entretanto, é, substancialmente, o mesmo, sobretudo quando se trata de coisas que a vossa linguagem se mostra impotente para traduzir com clareza. Recorrem então a figuras, a comparações, que tomais como realidade.”
Ao tratar na sua Revista, em agosto de 1858, sobre uma aparente contradição nas mensagens dos Espíritos, Allan Kardec coloca como um dos motivos "A insuficiência da linguagem humana para exprimir as coisas do mundo incorpóreo".
Em resumo, por mais que sejam atraentes as descrições feitas por Swedenborg e outros extáticos, o mundo espiritual é diferente do mundo material. Viver em uma realidade onde os sentidos corporais não existem mais (pois o corpo material não existe mais), é algo incompreensível para quem habituou-se a perceber a vida através destes sentidos.
Uma realidade em constante movimento, onde não existem mais as necessidades biológicas ou sociais, referentes à sobrevivência, em nada se compara à realidade que vivemos, logo  toda descrição deve ser vista (caridosamente vista) como elemento para alegorias, ou ensinamentos morais e não como a verdadeira imagem de um mundo dos espíritos.
Segundo as obras de Allan Kardec, o mundo espiritual é muito diferente do mundo corporal. A partir disso surgem muitas questões. Uma delas é a seguinte: Sendo tão diferente do mundo corporal, como não sofrer um estranhamento tão grande a ponto de ser insuportável a vida no mundo espiritual?
É o que trataremos no próximo post.
¹ Item 3, da segunda edição.

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