A MÃE DE TODAS AS BURCAS

Aqui coloco um artigo interessantíssimo de Richard Dawkins (que fecha seu livro "Deus um delírio") como texto de apoio para um estudo sobre as sensações e percepções dos Espíritos, segundo Allan Kardec que publicarei, aqui na minha coluna, adiante.
Obviamente este artigo não foi escolhido para defender a tese kardequiana, mas serve para relembrarmos a tese de Dawkins sobre o "Mundo Médio" das percepções e onde apresenta uma proposta evolucionista de como as necessidades produziram a faixa de captação dos sentidos do homem.


Richard Dawkins
A MÃE DE TODAS AS BURCAS

Um dos espetáculos mais tristes de nossas ruas hoje em dia é a imagem de uma mulher encoberta por uma forma negra dos pés à cabeça, espiando o mundo através de uma nesga minúscula. A burca não é só um instrumento da opressão de mulheres e de repressão de sua liberdade e de sua beleza; não é só um símbolo da crueldade flagrante masculina da trágica submissão feminina. Quero usar a estreita fenda do véu como representação de outra coisa. 

Nossos olhos enxergam o mundo através de uma fenda estreita no espectro eletromagnético. A luz visível é uma fresta de brilho no vasto espectro escuro, de ondas de rádio, no extremo curto, aos raios gama, no extremo longo. É difícil imaginar quão estreita ela é, e um desafio explicar. Imagine uma burca negra gigantesca, com uma fenda para a visão aproximadamente da largura-padrão, por exemplo de 2,5 centímetros. Se o comprimento do tecido negro acima da fenda representar o extremo das ondas curtas do espectro invisível, e se o comprimento do tecido negro abaixo da fenda representar a porção de ondas longas do espectro invisível, que comprimento a burca teria de ter para acomodar uma fenda de 2,5 centímetros à mesma escala? É difícil representá-la de forma sensata sem invocar escalas logarítmicas, tão imensos são os comprimentos de que estamos falando. O último capítulo de um livro como este não é lugar para começar a sair despejando logaritmos, mas pode acreditar em mim que seria a mãe de todas as burcas. A janelinha de 2,5 centímetros de luz visível é ridiculamente minúscula comparada aos quilómetros e quilómetros de tecido negro que representam a parte invisível do espectro, das ondas de rádio na barra da saia aos raios gama do alto da cabeça. O que a ciência faz para nós é alargar a janela. Ela se abre tanto que a vestimenta aprisionante quase que se rasga totalmente, expondo nossos sentidos a uma liberdade revigorante. 

Os telescópios ópticos usam lentes de vidro e espelhos para vasculhar os céus, e o que eles vêem são estrelas que por acaso estejam irradiando na estreita faixa de comprimento de onda que chamamos de luz visível. Mas outros telescópios "vêem" em raio X ou comprimentos de onda de rádio, e apresentam a nós uma cornucópia de céus noturnos alternativos. Numa escala menor, câmeras com filtros adequados conseguem "ver" em ultravioleta e tirar fotos de flores com uma série de faixas e pontos que são visíveis — e aparentemente "projetados" — para os olhos de insetos, mas que nossos olhos nus nem detectam. Os olhos dos insetos têm uma janela espectral de espessura semelhante à da nossa, mas ligeiramente mais para cima na burca: eles são cegos para o vermelho e vêm mais ultravioleta que nós — mais do "jardim ultravioleta".¹ 

A metáfora da janela estreita de luz, que se abre num espectro espetacularmente amplo, também funciona para outras áreas da ciência. Vivemos perto do centro de um museu de magnitudes cavernosas, enxergando o mundo com órgãos dos sentidos e sistemas nervosos equipados para perceber e entender apenas uma pequena variação mediana de tamanhos, que se movam numa variação mediana de velocidades. Ficamos bem com objetos que variem de alguns quilômetros (a visão de um pico de montanha) até um décimo de milímetro (a ponta de um alfinete). Fora dessa gama, até nossa imaginação é deficiente, e precisamos da ajuda de instrumentos e da matemática — que, felizmente, podemos aprender a usar. A gama de tamanhos, distâncias ou velocidades com que nossa imaginação se sente confortável é uma faixa minúscula, no meio de um espectro gigantesco do que é possível, da escala de estranheza do quantum, no extremo menor, à escala da cosmologia einsteiniana, no extremo maior. 

Nossa imaginação é tristemente subequipada para lidar com distâncias que saiam do estreito âmbito mediano do que é familiar desde sempre. Tentamos visualizar um elétron como uma bola pequenininha, em órbita em torno de um agrupamento maior de bolas que representam os prótons e os nêutrons. Não é nada disso. Os elétrons não são como bolinhas. Eles não se parecem com nada que possamos reconhecer. Nem claro o que "parecer" possa significar quando tentamos voar perto demais dos horizontes mais distantes da realidade. Nossa imaginação ainda não está instrumentalizada para penetrar na área do quantum. Nada que tenha aquela escala age como a matéria — da maneira como evoluímos para pensar — devia agir. Nem conseguimos lidar com o comportamento de objetos que se movam a alguma fração apreciável da velocidade da luz. O bom senso deixa-nos na mão, porque o bom senso evoluiu num mundo onde nada se move rápido demais, e nada é muito pequeno nem muito grande. 

No final de um famoso ensaio sobre "Mundos possíveis", o grande biólogo J. B. S. Haldane escreveu: "Agora, minha desconfiança é que o universo não só é mais estranho do que imaginamos, mas mais estranho do que podemos imaginar [...] Suspeito que haja mais coisas no céu e na terra que se sonha, ou que se possa sonhar, em qualquer filosofia". Aliás, fiquei intrigado com a sugestão de que o famoso discurso de Hamlet invocado por Haldane costuma ser dito de modo errado. A ênfase normal é no "tua": 

Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, 
Do que sonha a tua filosofia.² 

Na verdade, a citação é freqüentemente repetida com a implicação de que Horácio representa todos os racionalistas e céticos rasos. Mas alguns académicos colocam a ênfase em "filosofia", com o "tua" quase desaparecendo:"[...] do que sonha t'a filosofia". A diferença não interessa muito para nossos propósitos atuais, com a exceção de que a segunda interpretação já cuida do "qualquer" filosofia de Haldane.³


A pessoa a quem este livro é dedicado ganhou a vida com a estranheza da ciência, levando-a ao ponto da comédia. O trecho seguinte foi tirado do mesmo discurso improvisado em Cambridge em 1998 que citei no capítulo 1: "O fato de que vivemos no fundo de um poço profundo de gravidade, na superfície de um planeta coberto de gás que gira em volta de uma bola de fogo nuclear a 150 bilhões de quilómetros e achamos isso normal é obviamente uma indicação do quão torta tende a ser nossa perspectiva". Enquanto outros escritores de ficção científica brincavam com a estranheza da ciência para despertar nosso senso de mistério, Douglas Adams usava-a para nos fazer dar risada (quem já leu O guia do mochileiro das galáxias pode lembrar do "gerador de improbabilidade infinita", por exemplo). A risada pode mesmo ser a melhor resposta para alguns dos paradoxos mais esquisitos da física moderna. A alternativa, às vezes acho, é chorar. 

A mecânica quântica, aquele pico rarefeito de realização científica do século XX, faz previsões brilhantemente bem-sucedidas sobre o mundo real. Richard Feynman comparou sua precisão a prever uma distância tão grande quanto a largura da América do Norte com a acuidade da espessura de um fio de cabelo humano. Esse sucesso preditivo parece significar que a teoria quântica tem de ser verdadeira em algum sentido; tão verdadeira quanto qualquer coisa que conhecemos, mesmo os fatos mais bobos e comuns. Mas as pressuposições que a teoria quântica precisa fazer, para produzir as previsões, são tão misteriosas que o grande Feynman, ele mesmo, foi levado a dizer (existem várias versões dessa citação, dentre as quais a seguinte parece-me a mais legal): "Se você acha que entende a teoria quântica... você não entende a teoria quântica".4 

A teoria quântica é tão esquisita que os físicos recorrem a uma ou outra "interpretação" paradoxal dela. Recorrem é a palavra certa. David Deutsch, em A essência da realidade, adota a interpretação da teoria quântica dos "muitos mundos", talvez porque o pior do que ela pode ser acusada é de ser ridiculamente extravagante. Ela postula um número enorme e crescente de universos, que existem de forma paralela e são mutuamente indetectáveis, exceto pelo estreito portal dos experimentos de mecânica quântica. Em alguns desses universos eu já morri. Numa pequena minoria deles, você tem um bigode verde. E assim por diante. 

A alternativa, a "interpretação de Copenhague", é igualmente ridícula — não extravagante, apenas drasticamente paradoxal. Erwin Schrõdinger satirizou-a com sua parábola do gato. O gato de Schrõdinger é preso numa caixa com um mecanismo de morte acionado por um evento de mecânica quântica. Antes de abrirmos a tampa da caixa, não sabemos se o gato está vivo ou morto. O bom senso diz que, de qualquer jeito, o gato tem de estar ou vivo ou morto dentro da caixa. A interpretação de Copenhague contradiz o bom senso: tudo que existe antes de abrirmos a caixa é uma probabilidade. Assim que abrimos a caixa, a função de onda colapsa e ficamos com um evento isolado: o gato está morto, ou o gato está vivo. Até que abramos a caixa, ele não estava nem morto nem vivo. 

A interpretação dos "muitos mundos" para os mesmos acontecimentos é que em alguns universos o gato está morto; em outros universos o gato está vivo. 

Nenhuma das duas interpretações satisfaz o bom senso ou a intuição humana. Os físicos, mais machos, não estão nem aí. O que interessa é que a matemática funciona, e as previsões são experimentalmente cumpridas. A maioria de nós é fraca demais para ir atrás deles. Aparentemente precisamos de algum tipo de visualização do que está "realmente" acontecendo. Sei, aliás, que Schrõdinger propôs originalmente o experimento de pensamento do gato para desnudar o absurdo que via na interpretação de Copenhague. 

O biólogo Lewis Wolpert acredita que a esquisitice da física moderna é só a ponta do iceberg. A ciência em geral, ao contrário da tecnologia, é violenta com o bom senso.156 Wolpert calcula, por exemplo, que "há muito mais moléculas em um copo d'água do que copos d'água no oceano". Uma vez que toda a água do planeta passa pelo oceano, pareceria que a conclusão é de que toda vez que você toma um copo d'água há boas chances de que algo do que está bebendo tenha passado pela bexiga de Oliver Cromwell. É claro que não há nada de especial em Cromwell, nem em bexigas. Você não acabou de respirar um átomo de nitrogénio que um dia foi respirado pelo terceiro iguanodonte à esquerda da árvore cicadácea? Não fica feliz de viver num mundo em que, além de tal conjectura ser possível, você tem o privilégio de entender o porquê dela? E explicá-la publicamente para outra pessoa, não corno uma opinião ou crença, mas como algo que ela, quando tiver entendido seu raciocínio, se sentirá compelida a aceitar? Talvez esse seja um dos aspectos do que Cari Sagan quis dizer quando explicou sua motivação para escrever O mundo assombrado pelos demônios: A ciência vista como uma vela no escuro: "Não explicar a ciência parece-me perverso. Quando estamos apaixonados, queremos contar ao mundo todo. Este livro é uma declaração pessoal, que reflete meu caso de amor de vida inteira com a ciência". 

A evolução da vida complexa, e de fato sua própria existência num universo que obedeça às leis da física, é uma surpresa maravilhosa — ou seria, se não fosse o fato de que a surpresa é uma emoção que só pode existir num cérebro que seja o produto desse mesmo processo tão surpreendente. Existe um sentido antrópico, portanto, pelo qual nossa existência não deveria ser surpreendente. Gostaria de acreditar que falo também pelos outros seres humanos quando insisto, mesmo assim, que ela é de uma surpresa desesperadora.

Pense nisso. Em um planeta, e possivelmente um único planeta no universo inteiro, moléculas que normalmente não formariam nada mais complicado que um pedaço de pedra reúnem-se em grupos de matéria do tamanho de pedras, de uma complexidade tão inacreditável que são capazes de correr, pular, nadar, voar, enxergar, escutar, capturar e comer outros pedaços animados de complexidade; capazes em alguns casos de pensar e. sentir, e de apaixonar-se por outros pedaços de matéria complexa. Hoje entendemos em termos básicos como o truque funciona, mas somente desde 1859. Antes de 1859 isso teria parecido esquisitíssimo. Hoje, graças a Darwin, é só muito esquisito. Darwin pegou a janela da burca e a arregaçou, deixando entrar uma torrente de compreensão cujo caráter inovador e fascinante, e cujo poder de elevar o espírito humano, talvez tenha sido inédito — exceto talvez a percepção copérnica de que a Terra não era o centro do universo. "Diga-me", perguntou uma vez o grande filósofo do século XX Ludwig Wittgenstein a um amigo, "por que as pessoas sempre dizem que era natural para o homem assumir que o Sol é que girava em torno da Terra, em vez de que a Terra estava girando?" Seu amigo respondeu: "Bom, é óbvio que é porque parece que o Sol está girando em torno da Terra". Wittgenstein respondeu: "Bom, e como teria parecido se parecesse que era a Terra que estava girando?". Às vezes cito essa declaração de Wittgenstein em palestras, na expectativa de que o público dê risada. Em vez disso, as pessoas ficam assombradas, em silêncio. 

No mundo limitado em que nosso cérebro evoluiu, os objetos pequenos são mais propensos a se mexer que os grandes, que são vistos como pano de fundo para o movimento. Conforme o mundo roda, objetos que parecem grandes porque estão próximos — montanhas, árvores e prédios, o próprio chão — movem-se todos em exata sincronia entre si e entre o observador, em relação ao Sol e às estrelas. Nosso cérebro evoluído projeta uma ilusão de movimento neles, em vez de nas montanhas e nas árvores que estão no primeiro plano.

Quero agora explorar a questão mencionada acima, de que o modo como vemos o mundo, e o motivo pelo qual achamos certas coisas intuitivamente fáceis de entender e outras difíceis, é que nosso próprio cérebro é um órgão resultante da evolução: computadores portáteis, que evoluíram para ajudar-nos a sobreviver num mundo — usarei o nome Mundo Médio — em que os objetos que interessavam à nossa sobrevivência não eram nem muito grandes nem muito pequenos; um mundo em que as coisas ou estavam paradas ou se moviam devagar se comparadas com a velocidade da luz; e em que o muito improvável podia sem problemas ser tratado como impossível. Nossa fenda de burca mental é estreita porque ela não precisava ser mais larga para ajudar nossos ancestrais a sobreviver. 

A ciência nos ensinou que, contrariando toda a intuição que a evolução criou, coisas aparentemente sólidas como cristais e rochas são na verdade compostas quase totalmente de espaço vazio. A ilustração mais comum é a que representa o núcleo de um átomo como uma mosca no centro de um estádio de futebol. O próximo átomo está fora do estádio. A rocha mais dura, mais sólida, mais densa, portanto, "na verdade" é quase só espaço vazio, interrompido apenas por partículas minúsculas tão longe umas das outras que nem deveriam contar. Então por que as rochas parecem tão sólidas e duras e impenetráveis? 

Não vou tentar imaginar como Wittgenstein teria respondido a essa pergunta. Mas, como biólogo evolutivo, eu responderia da seguinte maneira: Nosso cérebro evoluiu para ajudar nosso corpo a se virar no mundo na escala em que esse corpo funciona. Nunca evoluímos para navegar no mundo dos átomos. Se tivéssemos, talvez nosso cérebro percebesse as rochas como coisas cheias de espaços vazios. As rochas parecem duras e impenetráveis para nossas mãos porque nossas mãos não conseguem penetrá-las. O motivo pelo qual elas não podem penetrá-las não tem nada a ver com os tamanhos e as separações entre as partículas que constituem a matéria. Tem a ver, sim, com os campos de força associados a essas partículas tão distantes entre si na matéria "sólida". É útil para nosso cérebro construir noções como solidez e impenetrabilidade, porque essas noções ajudam-nos a navegar com nosso corpo por um mundo no qual os objetos — que chamamos de sólidos — não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. 

Um pequeno intervalo cómico neste ponto — tirado de The men who stare at goats [Homens que encaram cabras], de Jon Ronson: 
Esta é uma história real. Verão de 1983. O major-general Albert Stubblebine m está sentado em sua mesa em Arlington, Virgínia, e olha fixamente para a parede, na qual estão penduradas suas várias condecorações militares. Elas detalham uma longa e respeitada carreira. Ele é o chefe de inteligência do Exército dos Estados Unidos, com 16 mil soldados sob seu comando... Ele não olha para os prémios, mas para a parede atrás deles. Sente que tem de fazer uma coisa, embora tenha medo só de pensar. Pensa na escolha que tem de fazer. Pode ficar em seu escritório ou pode ir ao escritório ao lado. A escolha é dele. E ele escolheu. Vai ao escritório ao lado... Ele se levanta, sai de trás da mesa e começa a andar. Afinal, pensa ele, do que mesmo o átomo é mais feito? Espaço! Ele acelera o passo. Do que eu sou mais feito? Pensa. Átomos! Só tenho que fundir os espaços... Então o general Stubblebine bate com tudo o nariz na parede de seu escritório. Droga, pensa. O contínuo fracasso do ato de atravessar sua parede confunde o general Stubblebine. 

O general Stubblebine é bem descrito como "um inovador" no site da organização em que, aposentado, ele hoje comanda junto com a mulher.A organização chama-se HealthFreedo-mUSA e é dedicada a "suplementos (vitaminas, minerais, aminoácidos etc.), ervas, remédios homeopáticos, medicina nutricional e comida limpa (sem pesticidas, herbicidas e antibióticos), sem corporações (através do uso da coerção do governo) ditando-lhe que doses e tratamentos você pode usar". Nenhuma menção aos preciosos fluidos corporais.6

Como evoluímos no Mundo Médio, achamos intuitivamente fácil entender idéias como: "Quando um major-general se movimenta, na velocidade média com que os majores-generais e outros objetos do Mundo Médio costumam se movimentar, e atinge outro objeto sólido do Mundo Médio como uma parede, seu avanço é dolorosamente interrompido". Nosso cérebro não está equipado para imaginar como seria ser um neutrino que atravessa uma parede, nos vastos interstícios de que a parede "na verdade" consiste. Assim como nosso entendimento não consegue captar o que acontece quando as coisas se movem à velocidade da luz. 

A intuição humana, que evoluiu e se formou no Mundo Médio sem ajuda, acha até mesmo difícil acreditar em Galileu quando ele nos diz que uma bala de canhão e uma pena, sem o atrito do ar, atingiriam o chão no mesmo instante se lançadas de uma torre inclinada. Isso porque, no Mundo Médio, o atrito do ar está sempre lá. Se tivéssemos evoluído no vácuo, nossa expectativa seria de que a pena e a bala de canhão atingissem o chão simultaneamente. Somos cidadãos do Mundo Médio resultantes da evolução, e isso limita o que somos capazes de imaginar. A abertura estreita de nossa burca só permite, a menos que sejamos superdotados ou peculiarmente instruídos, que vejamos o Mundo Médio. 

Em certo sentido, nós, animais, temos de sobreviver não apenas no Mundo Médio, mas no micromundo de átomos e elétrons também. Os próprios impulsos nervosos com que pensamos e imaginamos dependem das atividades do Micromundo. Mas uma compreensão do Micromundo não teria ajudado nossos ancestrais selvagens em nenhuma ação que tiveram de realizar, nenhuma decisão que tiveram de tomar. Se fôssemos bactérias, constantemente esbofeteados pelos movimentos térmicos das moléculas, seria diferente. Só que nós, mundomedianos, somos grandalhões demais para notar o movimento browniano. Da mesma maneira, nossa vida é dominada pela gravidade, mas praticamente ignoramos a força delicada da tensão da superfície. Um pequeno inseto inverteria essa ordem de prioridade e não acharia a tensão da superfície nada delicada.

Steve Grand, em Creation: Life and how to make it [Criação: vida e como fazê-la], é quase cruel com nossa preocupação com a matéria. Temos uma tendência a achar que só as "coisas" sólidas, materiais, são realmente "coisas". "Ondas" de flutuação eletromagnética num vácuo parecem "irreais". Os vitorianos achavam que ondas só eram ondas "em" algum meio material. Não se conhecia nenhum meio assim, então eles o inventaram e o batizaram de éter luminífero. Mas nosso entendimento só se sente confortável com a matéria "de verdade" porque nossos ancestrais evoluíram para sobreviver no Mundo Médio, onde a matéria é um conceito útil.

Por outro lado, até nós, mundomedianos, somos capazes de ver que um redemoinho é uma "coisa" com uma realidade parecida com a da rocha, embora a matéria do redemoinho esteja constantemente mudando. Numa planície do deserto na Tanzânia, à sombra do Ol Donyo Lengai, vulcão sagrado dos masai, há uma grande duna feita de cinzas de uma erupção em 1969. Seu formato é moldado pelo vento. O bonito, porém, é que ela anda. É o que tecnicamente se chama barcana. A duna inteira anda pelo deserto na direção oeste a uma velocidade de cerca de dezessete metros por ano. Ela mantém seu formato de lua crescente e avança na direção das pontas. O vento joga areia sobre a encosta mais baixa. Assim, conforme cada grão de areia chega ao topo, desce pela encosta mais inclinada, no centro do crescente. 

Na verdade, até uma barcana é mais "coisa" que uma onda. Uma onda parece movimentar-se horizontalmente pelo mar aberto, mas as moléculas de água movem-se verticalmente. Da mesma forma, as ondas de som podem viajar do falante para o ouvinte, mas as moléculas de ar não viajam: senão seria um vento, não um som. Steve Grand afirma que eu e você somos mais ondas que "coisas" permanentes. Ele convida o leitor a pensar 

numa experiência de sua infância. Alguma coisa de que você se lembre bem, alguma coisa que você consiga ver, sentir, talvez até cheirar, como se estivesse mesmo lá. Afinal de contas, você estava mesmo lá naquela época, não estava? Senão, como iria lembrar? Mas aqui vem a bomba: você não estava lá. Nem um único átomo que está em seu corpo hoje estava lá quando aquilo aconteceu [...] A matéria flui de lugar para lugar e por um instante reúne-se para formar você. O quer quer que você seja, portanto, você não é aquilo de que é feito. Se isso não faz você sentir um calafrio na espinha, leia de novo até que faça, porque isso é importante.7

"Na verdade" não é um termo que devemos usar com confiança. Se um neutrino tivesse um cérebro que houvesse evoluído em ancestrais do tamanho de neutrinos, ele diria que as rochas "na verdade" consistem em grande parte de espaços vazios. Temos um cérebro que evoluiu em ancestrais de tamanho médio, que não eram capazes de atravessar rochas, portanto nosso "na verdade" é um "na verdade" no qual as rochas são sólidas. "Na verdade", para um animal, é aquilo que seu cérebro precisa que seja, para ajudá-lo a sobreviver. E, como espécies diferentes vivem em mundos tão diferentes, haverá uma variedade perturbadora de "na verdade". 

O que vemos do mundo real não é o mundo real intocado, mas um modelo do mundo real, regulado e ajustado por dados sensoriais — um modelo que é construído para que seja útil para lidar com o mundo real. A natureza desse modelo depende do tipo de animal que somos. Um animal que voa precisa de um modelo de mundo diferente do de um animal que anda, que escala ou que nada. Predadores precisam de um modelo diferente do das presas, embora seus mundos necessariamente se sobreponham. O cérebro de um macaco precisa ter uma programação capaz de simular um labirinto tridimensional de galhos e troncos. O cérebro de um notonectídeo não precisa de um programa em 3D, já que mora na superfície de um lago na Flatland de Edwin Abbott. O software para construir modelos do mundo de uma toupeira é adaptado para o uso subterrâneo. Os ratos-toupeiras pelados provavelmente têm um programa de representação do mundo parecido com o de uma toupeira. Mas um esquilo, embora seja roedor como o rato-toupeira, provavelmente tem um software de construção do mundo muito mais próximo do do macaco. 

Já especulei, em O relojoeiro cego e em outros lugares, que os morcegos podem "ver" a cor com os ouvidos. O modelo de mundo de que um morcego precisa, para navegar pelas três dimensões capturando insetos, deve certamente ser semelhante ao modelo de que uma andorinha precisa para realizar a mesma tarefa. O fato de o morcego usar o eco para atualizar as variáveis de seu modelo, enquanto a andorinha usa a luz, é secundário. Os morcegos, sugiro, usam percepções de tonalidades, como "vermelho" e "azul", como rótulos internos para algum aspecto útil dos ecos, talvez a textura acústica das superfícies; exatamente da mesma maneira como as andorinhas usam as percepções de tonalidades para rotular comprimentos de onda curtos e longos da luz. O importante é que a natureza do modelo é determinada por como ele será usado, mais que pela modalidade sensorial envolvida. A lição que os morcegos dão é essa. O formato geral do modelo mental — ao contrário das variáveis que estão constantemente chegando através dos nervos sensoriais — é uma adaptação ao modo de vida do animal, exatamente como suas asas, suas patas e sua cauda. 

J. B. S. Haldane, no artigo sobre os "mundos possíveis" que citei anteriormente, tinha algo de relevante a dizer sobre os animais cujo mundo é dominado pelos cheiros. Ele ressaltou que os cachorros conseguem distinguir dois ácidos graxos voláteis muito semelhantes — o ácido caprílico e o ácido capróico — diluídos na proporção de uma parte para um milhão. A única diferença é que a principal cadeia molecular do ácido caprílico tem dois átomos de carbono a mais que a cadeia principal do ácido capróico. Um cachorro, imaginou Haldane, provavelmente seria capaz de colocar os ácidos "na ordem de seus pesos moleculares por meio dos cheiros, assim como um homem consegue colocar cordas de piano na ordem de seu comprimento por meio das notas". 

Existe outro ácido graxo, o ácido cáprico, que é igual aos outros dois, exceto pelo fato de que tem mais dois átomos de carbono ainda na cadeia principal. Um cão que nunca tenha deparado com o ácido cáprico talvez não tenha mais dificuldade de imaginar seu cheiro que nós teríamos para imaginar um trompete tocando uma nota mais alta que a que já ouvimos o trompete tocar. Parece-me muito razoável supor que um cachorro, ou um rinoceronte, trate misturas de cheiros como acordes harmoniosos. Talvez haja dissonâncias. É pouco provável que haja melodias, pois as melodias são construídas com notas que começam ou param abruptamente em momentos precisos, diferentemente dos odores. Ou talvez cachorros e rinocerontes cheirem em cores. O argumento seria o mesmo para os morcegos. 

Mais uma vez, as percepções a que chamamos cores são instrumentos usados por nosso cérebro para rotular distinções importantes no mundo exterior. As tonalidades que sentimos — o que os filósofos chamam de qualia — não têm conexão intrínseca com luzes de comprimentos específicos de onda. São rótulos internos que estão disponíveis no cérebro, quando ele constrói seu modelo da realidade externa, para fazer distinções que são especialmente relevantes para o animal em questão. Em nosso caso, ou no de um pássaro, isso significa a luz de diferentes comprimentos de onda. No caso de um morcego, como especulei, podem ser superfícies de diferentes propriedades ou texturas de eco, talvez vermelho para brilhante, azul para aveludado, verde para abrasivo. E, no caso de um cachorro ou de um rinoceronte, por que não seria para os cheiros? A possibilidade de imaginar como é o mundo exterior para um morcego ou um rinoceronte, para um inseto que anda sobre a água ou uma toupeira, para uma bactéria ou um besouro que perfura cascas de árvores é um dos privilégios que a ciência nos proporciona quando afasta o tecido negro de nossa burca para nos mostrar a maior variedade do que existe, para nosso deleite. 

A metáfora do Mundo Médio — da faixa intermediária de fenómenos que a abertura estreita de nossa burca permite-nos enxergar — aplica-se a outras escalas ainda, ou "espectros". Podemos construir uma escala de improbabilidades, com uma abertura tão estreita quanto, através da qual nossa intuição e nossa imaginação conseguem avançar. Em um extremo do espectro de improbabilidades estão aqueles acontecimentos que classificaríamos como impossíveis. Milagres são coisas extremamente improváveis. Uma estátua da Madona poderia acenar com a mão para nós. Os átomos que formam sua estrutura cristalina estão todos vibrando para a frente e para trás. Como são muitos, e como não há uma preferência em sua direção de movimento, a mão, como a vemos no Mundo Médio, fica solidamente parada. Mas os átomos que se mexem o tempo todo na mão podiam todos simplesmente, por acaso, se mover na mesma direção ao mesmo tempo. E de novo. E de novo... Nesse caso a mão ia se mexer, e a veríamos fazendo tchau para nós. Poderia acontecer, mas as chances de que não aconteça são tão grandes que, se você tivesse começado a escrever o número na origem do universo, ainda não teria escrito zeros suficientes até hoje. O poder para calcular essas possibilidades — o poder de quantificar o quase impossível em vez de simplesmente desistir de desespero — é outro exemplo dos benefícios liberadores da ciência para o espírito humano. 

A evolução no Mundo Médio deixou-nos mal equipados para lidar com acontecimentos altamente improváveis. Mas na vastidão do espaço astronômico, ou do tempo geológico, acontecimentos que parecem impossíveis no Mundo Médio revelar-se-iam inevitáveis. A ciência abre à força a estreita fresta através da qual estamos acostumados a enxergar o espectro de possibilidades. O cálculo e o raciocínio libertam-nos para visitar regiões de possibilidade que um dia estiveram fora dos limites permitidos, ou povoadas por dragões. Já utilizamos esse alargamento da janela no capítulo 4, em que analisamos a improbabilidade da origem da vida e como um evento químico quase impossível tem de acontecer, desde que nos sejam dados para brincar anos planetários suficientes; e onde analisamos o espectro de universos possíveis, cada um com seu próprio conjunto de leis e constantes, e a necessidade antrópica de nos encontrarmos em um lugar amistoso dentre uma minoria de lugares amistosos. 

Como devemos interpretar o "mais estranho do que podemos imaginar", de Haldane? Mais estranho do que pode, em princípio, ser imaginado? Ou simplesmente mais estranho do que podemos imaginar, dada a limitação do aprendizado evolutivo de nosso cérebro no Mundo Médio? Será que podemos, pelo treino e pela prática, nos emancipar do Mundo Médio, rasgar nossa burca negra e alcançar algum tipo de compreensão intuitiva — além de meramente matemática — daquilo que é pequeníssimo, grandíssimo e rapidíssimo? Genuinamente não sei a resposta, mas fico muito feliz de estar vivo numa época em que a humanidade tenta superar os limites do entendimento. Melhor ainda, talvez acabemos descobrindo que os limites não existem.

¹ "O jardim ultravioleta" foi o título de uma de minhas cinco Palestras de Natal da Royal Institution, originalmente transmitidas pela BBC sob o título "Growing up in the universe" ["Crescendo no universo"]. A série completa das cinco palestras está disponível em dvd em www.richarddawkins.net, site da Fundação Richard Dawkins.
²  "There are more things in heaven and earth, Horatio,/ Than are dreamt of in your philosophy." (N. T.) 
³ Embora não seja totalmente fiel ao original, a tradução que acabou se consagrando para citações em português é: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia", que muda o tom da frase, aproximando-a da interpretação de Haldane. (N. T.)
Afirmação semelhante é atribuída a Niels Bohr: "Se alguém não ficar chocado com a teoria quântica é porque não a entendeu".
www.healthfreedomusa.org/aboutus/president.shtml. Para um retraio aparentemente bem característico do general Stubblebine, veja www.mindcontrol-forums.com/images/Mind94.jpg. 

Referência ao filme Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, em que um general acha que os comunistas querem poluir os "preciosos fluidos corporais" dos americanos. (N. T.)
7 Alguns podiam contestar a verdade literal da afirmação de Grand, por exemplo no caso de moléculas de ossos. Mas o espírito dela com certeza é válido. Você é mais onda que "coisas" materiais estáticas




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