14. No sono vivemos o mundo espiritual

No post anterior levantamos a seguinte questão:
Sendo tão diferente do mundo corporal, como não sofrer um estranhamento tão grande a ponto de ser insuportável a vida no mundo espiritual?
Ao comentar o que eu havia escrito, meu amigo André Cascaes adiantou a resposta trazendo uma série de perguntas e respostas de O Livro dos Espíritos, onde Allan Kardec trata do tema "sono e sonhos".
Segundo o Espiritismo, ao dormirmos nossa alma se desprende do corpo, passando a viver uma outra realidade: a realidade espiritual. É uma espécie de morte diária, como vemos no item 402:
Quando dorme, o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre. 
Esta "morte" noturna dá ao homem a possibilidade de experimentar momentaneamente uma vida que será a definitiva, mais tarde. Logo não há, segundo essa lógica uma ruptura tão radical ao se morrer. Ou há? Já veremos.
Antes vamos seguir a idéia do sono como desprendimento da alma frente ao corpo. 
Podemos perguntar por que não lembramos do que fazemos durante o sono do corpo. 
Para o Espiritismo os sonhos são as lembranças do que se faz no sono. A alma vive sua vida e ao retornar ao corpo imprime no cérebro suas lembranças, no entanto:
Vossos sonhos nem sempre refletem a ação da alma em seu pleno desenvolvimento; são, muitas vezes, apenas a lembrança da perturbação que experimenta à sua partida ou no seu regresso ao corpo, acrescida da relativa ao que fizestes ou do que vos preocupa quando em vigília. A não ser assim, como explicaríeis os sonhos absurdos, que tanto os sábios, quanto as mais humildes e simples criaturas têm? Acontece também que os maus Espíritos se aproveitam dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilânimes.¹
O motivo de não haver uma lembrança total ao invés desse conjunto de "interferências" na memória do homem é o "equipamento", isto é:
...como é pesada e grosseira a matéria que o compõe, o corpo tem dificuldade em conservar as impressões que o Espírito recebeu, porque a este não chegaram por intermédio dos órgãos corporais.

É esta "morte" diária que faz como que Espíritos em melhores condições que a média do mundo aceitem reencarnar por aqui:

Graças ao sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos. Por isso é que os Espíritos superiores assentem, sem grande repugnância, em encarnar entre vós. Quis Deus que, tendo de estar em contato com o vício, pudessem eles ir retemperar-se na fonte do bem, a fim de igualmente não falirem, quando se propõem a instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes abriu, para que possam ir ter com seus amigos do céu; é o recreio depois do trabalho, enquanto esperam a grande libertação, a libertação final, que os restituirá ao meio que lhes é próprio.

Voltemos à possibilidade de uma uma ruptura radical ao se morrer e ao estranhamento do Espírito ao sair do corpo e retomar o mundo espiritual.
Para Allan Kardec, este mundo invisível (que nossa linguagem não pode descrever, onde as necessidades do corpo não existem, onde a linguagem é diferente e os sentidos do ser também são diferentes) é a vida normal do Espírito e, obviamente, não há estranhamento que impeça a vida neste "lugar".
Todavia, por viver na matéria (e às vezes julgando-se matéria tão somente) o Espírito, ao morrer, não se dá conta de imediato que morreu. Entra em um estado que Allan Kardec chama de perturbação.
Mas este estado, que todos experimentam, é passageiro.  O Espírito, pouco a pouco vai recobrando sua verdadeira essência, se liberando da "materialidade" e recordando não só que fez durante o sono, mas suas vivências do passado.
Perguntando sobre o "espanto" que alguns Espíritos experimentam ao reentrar no mundo invisível, recebe a seguinte resposa:
“Isso é apenas o efeito do momento e da perturbação que se segue ao despertar do Espírito. Mais tarde ele se vai inteirando perfeitamente da sua condição, à medida que lhe volta a lembrança do passado e que a impressão da vida terrena se lhe apaga.”
Esta questão da perturbação e muito interessante e merece ser estudada de forma mais aprofundada, todavia o que nos importava aqui era deixar claro que, para Allan Kardec, mesmo havendo um estranhamento inicial o Espírito está retornando a sua realidade normal e, apesar do desejo de continuar em um mundo material, com roupas, casas, empregos, lucros, eventos sociais, escolas e prisões, gozos e castigos corporais, a realidade espiritual é outra. E ele a vive integralmente passado o período de perturbação. 
Vida esta que, todas as noites, ele experimenta.

¹ Mesmo item citado anteriormente (402).




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