Vitalismo e outras questões oitocentistas em Eça de Queirós

Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar um pouco doido, entrou; era um estudante da Escola, amigo de Julião, e quase imediatamente os dois recomeçaram uma discussão que tinham travado de manhã, e que fora interrompida às onze horas, quando o rapaz de olhar doido a almoçar à Áurea.
— Não, menino! — exclamava o estudante, exaltado. — Estou na minha! A Medicina é uma meia ciência; a Fisiologia é outra meia ciência! São ciências conjeturais, porque nos escapa a base, conhecer o princípio da vida!
E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe:
— Que sabemos nós do princípio da vida?
Sebastião, humilhado, baixou os olhos.
Mas Julião indignava-se:
— Estás desmoralizado pela doutrina vitalista, miserável! — Trovejou contra o Vitalismo, que declarou "contrário ao espírito científico". Uma teoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos não são as mesmas que governam os corpos vivos — é uma heresia grotesca — exclamava. — E Bichat que a proclama é uma besta!
O estudante, fora de si, bradou — que chamar a Bichat uma besta era simplesmente de um alarve.
Mas Julião desprezou a injúria, e continuou, exaltado nas suas idéias:
— Que nos importa a nós o princípio da vida? Importa-me tanto como a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro qualquer princípio:
um segredo! Havemos de ignorá-lo eternamente! Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os fins, mistérios! São causas primárias com que não temos nada a fazer, nada! Podemos batalhar séculos, que não avançamos uma polegada. O físiologista, o químico, não têm nada com os princípios das coisas; o que lhes importa são os fenômenos! Ora, os fenômenos e as suas causas imediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos — numa pedra, como num desembargador! E a Fisiologia e a Medicina são ciências tão exatas como a Química! Isto já vem de Descartes!
Travaram então um berreiro sobre Descartes. E imediatamente, sem que Sebastião atônito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se sobre a idéia de Deus.
O estudante parecia necessitar Deus para explicar o Universo. Mas Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe uma hipótese safada", "uma velha caturrice do partido miguelista"! E começaram a assaltar-se sobre a questão social, como dois galos inimigos.
O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre a mesa, o princípio da autoridade! Julião berrava pela "anarquia individual!" E depois de citarem com fúria Proudhon, Bastiat, Jouffroy romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridência da voz, censurou violentamente ao estudante — as suas inscrições a seis por cento, o ridículo de ser filho de um corretor de fundos, e o bife de proprietário que vinha de comer na Áurea!
Olharam-se, então, com rancor.
Mas daí a momentos o estudante deixou cair com desdém algumas palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa.


Retirado da obra O Primo Basílio,  publicado em 1878.


Os negritos são nossos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário