EMANUEL SWEDENBORG, segundo Borges

Jorge Luis Borges
Buenos Aires, 24/08/1899 — Genebra, 14/06/1986
Voltaire disse que o homem mais extraordinário registrado pela história foi Carlos XII. Eu diria: talvez o homem mais extraordinário – a admitirmos tais superlativos – tenha sido o mais misterioso dos súditos de Carlos XII, Emanuel Swedenborg. Quero dizer algumas palavras sobre ele e, em seguida, falar de sua doutrina, que é o que mais nos interessa.
Emanuel Swedenborg nasceu em Estocolmo, no ano de 1688, e morreu em Londres, em 1772. Uma longa vida, mais longa ainda se pensarmos nas breves vidas da época. Quase conseguiu completar cem anos. Sua vida divide-se em três períodos. Esses períodos são de intensa atividade. Cada um deles dura – já se calculou – vinte e oito anos. No início, temos um homem dedicado ao estudo. O pai de Swedenborg era um bispo luterano, e Swedenborg foi educado no luteranismo, cuja pedra angular, como se sabe, é a salvação pela graça – em que Swedenborg não acredita. Em seu sistema, na nova religião que pregou, fala-se da salvação pelas obras, embora estas não sejam, certamente, missas nem cerimônias; são obras verdadeiras, obras nas quais se insere o homem em sua totalidade, quer dizer, seu espírito e, o que é ainda mais curioso, também sua inteligência.
Pois bem, Swedenborg começa como presbítero e depois se interessa pelas ciências. Estas lhe interessam, sobretudo, de modo prático. Mais tarde, descobriu-se que ele se antecipara a muitas invenções ulteriores. Por exemplo, a hipótese nebular de Kant e de Laplace. Em seguida, a exemplo de Leonardo da Vinci, Swedenborg desenhou um veículo para andar pelo ar. Ele sabia que era inútil, mas nele via um possível ponto de partida para aquilo que hoje denominamos aviões. Também desenhou veículos para andarem debaixo      d´água, como havia previsto Francis Bacon. Depois, interessou-se – fato também singular – pela mineralogia. Foi assessor para assuntos de minas em Estocolmo. Interessou-se também pela anatomia. E, como Descartes, interessou-lhe o ponto exato em que o espírito se comunica com o corpo.
Disse Emerson: "Lamento dizer que ele nos deixou cinqüenta volumes". Cinqüenta volumes, dos quais vinte e cinco, pelo menos, são dedicados à ciência, à matemática, à astronomia. Recusou-se a ocupar a cátedra de Astronomia na Universidade de Upsala, pois repudiava tudo que fosse teórico. Era um homem prático. Foi engenheiro militar de Carlos XII, que o prestigiou. Os dois se relacionaram muito: o herói e o futuro visionário. Swedenborg idealizou uma máquina para transportar navios por terra, em uma daquelas guerras quase míticas de Carlos XII, sobre as quais escreveu tão esplendidamente Voltaire. Transportaram os barcos de guerra ao longo de vinte milhas.
Mais tarde, mudou-se para Londres, onde estudou as artes do carpinteiro, do ebanista, do tipógrafo, do fabricante de instrumentos. Também desenhou mapas para os globos terrestres. Ou seja, foi um homem eminentemente prático. A propósito, recordo uma frase de Emerson: "Nenhum homem levou uma vida mais real que Swedenborg". É necessário que saibamos isso, que juntemos toda essa sua obra cientifica e prática. Foi também um político – foi senador do reino. Aos cinqüenta e cinco anos já havia publicado uns vinte e cinco volumes sobre mineralogia, anatomia e geometria. 
Aconteceu, então, o fato capital de sua vida. O fato capital de sua vida foi uma revelação. Recebeu essa revelação em Londres, precedida de sonhos, registrados em seu diário. Não foram publicados, mas sabe-se terem sido sonhos eróticos.
E, depois, veio a visitação, que alguns consideraram um acesso de loucura. Isto, porém, é negado pela lucidez de sua obra, pelo fato de que, em nenhum momento, nós nos sentimos diante de um louco. 
Escreve sempre com grande clareza, quando expõe sua doutrina. Em Londres, um desconhecido que o havia seguido pela rua entrou em sua casa e disse-lhe que era Jesus, que a Igreja estava em decadência – como a Igreja judaica, quando surgiu Jesus Cristo – e que ele tinha o dever de renovar a Igreja, criando uma terceira Igreja, a de Jerusalém. Tudo isso parece absurdo, inacreditável, mas temos a obra de Swedenborg. E essa obra é muito vasta, escrita em um estilo muito tranqüilo. Ele não justifica nada, em momento algum. Aqui, cabe recordar aquela frase de Emerson, que diz: "Os argumentos não convencem ninguém". Swedenborg expõe tudo com autoridade, com tranqüila autoridade.
Pois bem, Jesus disse-lhe que o encarregava da missão de renovar a Igreja e que lhe seria permitido visitar o outro mundo, o mundo dos espíritos, com seus inumeráveis céus e infernos. Que seu dever era estudar a Sagrada Escritura. Antes de escrever algo, ele se dedicou, ao longo de dois anos, ao estudo da língua hebraica, pois queria ler os textos originais. Voltou a estudar os textos e neles acreditou haver encontrado o fundamento de sua doutrina, um pouco à maneira dos cabalistas, que encontram razões para o que procuram no texto sagrado.
Analisemos, antes de mais nada, sua visão do outro mundo, sua visão da imortalidade pessoal, na qual acreditou, e veremos que toda ela se baseia no livre-arbítrio. Na Divina Comédia, de Dante – essa obra tão bela literariamente –, o livre-arbítrio cessa no momento da morte. Os mortos são condenados por um tribunal e merecem o céu ou o inferno. Na obra de Swedenborg, ao contrário, nada disso ocorre. Ele nos diz que, ao morrer, o homem não se dá conta de haver morrido, já que tudo que o circunda continua igual. Encontra-se em sua casa, os amigos o visitam, ele percorre as ruas de sua cidade, não imagina, enfim, que morreu. Mas logo começa a notar algo. Começa a notar algo que a princípio o alegra e que, depois, o assusta: tudo, no outro mundo, é mais vívido que neste.
Sempre imaginamos o outro mundo de modo nebuloso, mas Swedenborg nos diz que ocorre exatamente o contrário, que as sensações são muito mais vívidas no outro mundo. Nele há, por exemplo, mais cores. E, se imaginamos que os anjos, no céu de Swedenborg, como quer que se encontrem, estão sempre de rosto voltado para o Senhor, podemos igualmente imaginar uma espécie de quarta dimensão. Em todo caso, Swedenborg repete que o outro mundo é muito mais vívido que este. Nele há mais cores, há mais formas. Tudo é mais concreto, tudo é mais tangível que neste mundo. "Tanto é assim" – diz ele – "que este mundo, comparado com o mundo que vi em minhas inumeráveis andanças pelos céus e pelos infernos, é como uma sombra. É como se vivêssemos na sombra."
Aqui lembro uma frase de Santo Agostinho. Em Civitas Dei, Santo Agostinho diz que, sem dúvida, o gozo sensual era mais forte no Paraíso do que aqui, porque não se pode supor que a queda tenha melhorado alguma coisa. E Swedenborg diz o mesmo. Ele fala dos gozos carnais nos céus e nos infernos do outro mundo e diz que são muito mais vívidos que os daqui. O que acontece quando um homem morre? No princípio, não se dá conta de haver morrido. Prossegue em suas ocupações habituais, recebe a visita dos amigos, conversa com eles. E, depois, pouco a pouco, os homens percebem, assustados, que tudo é mais vívido, que há mais cores. O homem pensa: "Eu vivi todo o tempo na sombra; agora eu vivo na luz". E isso pode alegrá-lo por um momento.
Em seguida, dele se aproximam desconhecidos, que com ele conversam. E esses desconhecidos são anjos e demônios. Swedenborg diz que os anjos não foram criados por Deus, que os demônios não foram criados por Deus. Os anjos são homens que ascenderam à condição angelical; os demônios são homens que desceram à condição demoníaca. De modo que toda a população dos céus e dos infernos é composta de homens, e estes homens são, agora, anjos e são, agora, demônios. Pois bem, do morto se acercam anjos. Deus não condena ninguém ao inferno. Deus quer que todos os homens se salvem. Ao mesmo tempo, no entanto, Deus concedeu ao homem o livre-arbítrio, o terrível privilégio de condenar-se ao inferno ou de merecer o céu. Quer dizer, quanto à doutrina do livre-arbítrio, que, segundo a doutrina ortodoxa, cessa após a morte, Swedenborg a conserva até depois da morte. Há, então, uma região intermediária, a região dos espíritos. Nela estão os homens, as almas daqueles que morreram, e eles conversam com anjos e com demônios.
Então, chega aquele momento que pode durar uma semana, pode durar um mês, pode durar muitos anos; não sabemos quanto tempo pode durar. Nesse  momento, o homem resolve ser um demônio, ou vir a ser um demônio ou um anjo. Em um dos casos merece o inferno. Essa região é uma região de vales e também de fendas. Essas fendas podem ser inferiores, que comunicam com os infernos, ou fendas superiores, que comunicam com os céus. E o homem procura, conversa e permanece na companhia daqueles de quem gosta. Se tem temperamento demoníaco, prefere a companhia dos demônios; se tem temperamento angelical, a companhia dos anjos. Se quiserem uma descrição de tudo isso – por certo muito mais eloqüente do que a minha –, vocês a encontrarão no terceiro ato de Man and Superman, de Bernard Shaw.
É curioso que Shaw jamais mencione Swedenborg. Creio que ele chegou a fazê-lo por intermédio de Blake, ou através de sua própria doutrina. Porque no sistema de John Tanner é mencionada a doutrina de Swedenborg, mas sem que este seja nomeado. Presumo não ter havido desonestidade por parte de Shaw, mas sim que sua crença tenha sido sincera. Presumo que Shaw tenha chegado às mesmas conclusões por intermédio de William Blake, que ensaia a doutrina da salvação anunciada por Swedenborg.
Bem, o homem, então, conversa com anjos, o homem conversa com demônios, e sente-se atraído mais por uns que por outros. Isso, segundo seu temperamento. Aqueles que se condenam ao inferno – já que Deus não condena ninguém – sentem-se atraídos pelos demônios. Agora, o que são os infernos? Os infernos, segundo Swedenborg, têm vários aspectos. O aspecto que teriam para nós ou para os anjos. São áreas pantanosas, áreas em que há cidades que parecem ter sido destruídas por incêndios; mas aí os réprobos sentem-se felizes. Sentem-se felizes a seu modo, ou seja, estão cheios de ódio e não há um monarca nesse reino; continuamente estão conspirando uns contra os outros. É um mundo de baixa política, de conspiração. Isso é o inferno. A seguir, temos o céu, que é o oposto, o que corresponde simetricamente ao inferno. Segundo Swedenborg – e esta é a parte mais difícil de sua doutrina –, haveria um equilíbrio entre as forças infernais e as forças angelicais, necessário para que o mundo subsista. Nesse equilíbrio é sempre Deus que manda. Deus permite que os espíritos infernais permaneçam no inferno, pois só no inferno eles se sentem felizes. E Swedenborg nos relata o caso de um espírito demoníaco que ascende ao céu, aspira o perfume do céu, ouve as conversas do céu, e tudo lhe parece horrível. O perfume lhe parece fétido, a luz lhe parece negra. Então, ele volta para o inferno, porque só no inferno é feliz. O céu é o mundo dos anjos. E Swedenborg acrescenta que o inferno todo tem a forma de um demônio; e o céu, a forma geral de um anjo. O céu compõe-se de sociedades de anjos, e aí está Deus. E Deus é representado pelo sol.
De modo que o sol corresponde a Deus; e os piores infernos são os infernos ocidentais e os do norte. Em compensação, a leste e ao sul os infernos são mais suaves. Ninguém está condenado a eles. Cada um procura a sociedade que quiser, procura os companheiros que quiser, e o faz segundo o apetite que dominou sua vida. Aqueles que chegam ao céu têm uma noção equivocada. Pensam que no céu rezarão continuamente; e é-lhes permitido rezar, mas, ao fim de poucos dias ou semanas, eles se cansam: dão-se conta de que isso não é o céu. Depois, adulam Deus; louvam-No. Deus não gosta de ser adulado. E essa gente também se cansa de adular Deus. Imaginam, certamente, que poderão ser felizes conversando com seus entes queridos; ao fim de certo tempo, porém, percebem que os entes queridos e os heróis ilustres podem ser tão entediantes na outra vida como nesta. Cansam-se disso e, então, entram na verdadeira obra do céu. E, neste ponto, recordo um verso de Tennyson, em que ele diz que a alma não deseja assentos dourados; simplesmente, deseja que lhe seja concedido o dom de continuar e de não cessar. Quer dizer, o céu de Swedenborg é um céu de amor e, acima de tudo, um céu de trabalho, um céu altruísta. Cada um dos anjos trabalha para os outros; todos trabalham para os demais. Não é um céu passivo. Tampouco é uma recompensa. Se alguém tem temperamento angelical, alcança esse céu e nele se sente bem. Mas há outra diferença muito importante no céu de Swedenborg: seu céu é eminentemente intelectual. Swedenborg narra a história, patética, de um homem que durante sua vida se propôs ganhar o céu. Para tanto, renunciou a todos os gozos sensuais.
Retirou-se à tebaida. Aí, abstraiu-se de tudo. Rezou, pediu o céu. Quer dizer, foi se empobrecendo. E o que acontece quando ele morre? Quando morre, chega ao céu, e no céu não sabem o que fazer com ele. Ele tenta acompanhar as conversas dos anjos, mas não as compreende. Tenta aprender as artes. Tenta ouvir tudo. Tenta aprender tudo e não consegue, porque se empobreceu. É, apenas, um homem justo e mentalmente pobre. Concedem-lhe, então, como dom, o poder idealizar uma imagem: o deserto. No deserto, ele rezava como rezava na terra, mas sem se separar do céu, pois sabia que se tornara indigno do céu, por sua penitência, por haver empobrecido sua vida, por se haver negado os gozos e os prazeres da vida, o que também é um mal. Essa é uma inovação de Swedenborg, porque sempre se pensou que a salvação tem caráter ético. Quer dizer, se um homem é justo, ele se salva. "Dos pobres de espírito é o reino dos céus", etc. É o que comunica Jesus. Mas Swedenborg vai mais longe. Diz que isso não basta, que um homem tem de salvar-se também intelectualmente. Ele imagina o céu, sobretudo, como uma série de conversas teológicas entre os anjos. E, se um homem não pode acompanhar essas conversas, é indigno do céu. Assim, deve viver sozinho. Mas depois virá William Blake, que acrescenta uma terceira salvação. Diz que podemos, que temos de nos salvar também por meio da arte. Blake explica que também Cristo foi um artista, já que não pregava por meio de palavras, mas de parábolas. E as parábolas são, é claro, expressões estéticas. Quer dizer, a salvação se daria pela inteligência, pela ética e pelo exercício da arte.  Neste ponto recordamos algumas das frases em que Blake, de algum modo, suavizou as longas sentenças de Swedenborg. Quando diz, por exemplo: "O bobo não entrará no céu, por mais santo que seja". Ou, ainda: "É preciso prescindir da santidade; é preciso se investir de inteligência". 
De modo que temos esses três mundos. Temos o mundo do espírito e, em seguida, ao fim de certo tempo, um homem terá merecido o céu, um homem terá merecido o inferno. O inferno é, na verdade, regido por Deus, que necessita desse equilíbrio. Satanás é, simplesmente, o nome de uma região. O demônio é, simplesmente, um personagem mutante, já que todo o inferno é um mundo de conspirações, de pessoas que se odeiam, que se juntam para atacar outra.
Depois Swedenborg passa a conversar com diferentes pessoas no paraíso, com diferentes pessoas nos infernos. Tudo isso lhe é permitido, para que funde a nova Igreja. E o que faz Swedenborg? Não faz pregações; publica livros, anonimamente, escritos em sóbrio e árido latim. E difunde tais livros. Assim transcorrem os últimos trinta anos da vida de Swedenborg. Vive em Londres. Leva uma vida muito simples. Alimenta-se de leite, pão, legumes. Às vezes, chega um amigo da Suécia, quando, então, ele se permite uns dias de descanso. Quando foi à Inglaterra, quis conhecer Newton, porque lhe interessava muito a nova astronomia, a lei da gravidade. Mas nunca chegou a conhecê-lo. Interessou-se muito pela poesia inglesa. Em seus escritos menciona Shakespeare, Milton e outros. Tece-lhes elogios por sua imaginação; quer dizer, esse homem tinha senso estético. Sabemos que, quando percorria os países – porque viajou pela Suécia, Inglaterra, Alemanha, Áustria, Itália –, visitava as fábricas, os bairros pobres. Apreciava muito a música. Era um cavalheiro daquela época. Chegou a ser um homem rico. Seus criados moravam no andar térreo de sua casa, em Londres (a casa foi demolida recentemente), e o viam conversando com os anjos ou discutindo com os demônios. No diálogo, jamais quis impor suas idéias. Naturalmente não permitia que zombassem de suas visões, tampouco queria impô-las: antes procurava desviar a conversa desses temas.
Há uma diferença essencial entre Swedenborg e os outros místicos. No caso de San Juan de la Cruz, temos descrições muito vívidas do êxtase. Temos o êxtase referido em termos de experiências eróticas ou com metáforas de vinho. Por exemplo, um homem que se encontra com Deus, e Deus é igual a si mesmo. Há um sistema de metáforas. Na obra de Swedenborg, ao contrário, não há nada disso. É a obra de um viajante que percorreu terras desconhecidas e que as descreve tranqüila e minuciosamente. Por isso, sua leitura não é exatamente divertida. É assombrosa e gradativamente divertida. Li os quatro volumes de Swedenborg que foram traduzidos para o inglês e publicados pela Everyman´s Library. Disseram-me que existe uma tradução em espanhol, uma seleção, publicada pela Editora Nacional. Vi alguns registros estenográficos sobre ele, sobre toda aquela esplêndida conferência feita por Emerson. Emerson proferiu uma série de conferências sobre homens representativos. Chamou-as: "Napoleão, ou o homem do mundo; Montaigne, ou o cético; Shakespeare, ou o poeta; Goethe, ou o homem de letras; Swedenborg, ou o místico". Esta foi a primeira introdução que li à obra de Swedenborg. Essa conferência de Emerson, que é memorável, em última análise, não está inteiramente de acordo com Swedenborg. Havia algo que lhe desagradava: talvez por Swedenborg haver sido tão minucioso, tão dogmático. Porque Swedenborg insiste várias vezes nos mesmos fatos. Repete a mesma idéia. Não procura analogias. É um viajante que percorreu um país muito estranho. Que percorreu os inumeráveis céus e infernos, e que os descreve. Vejamos, agora, outro tema de Swedenborg: a doutrina das correspondências. Tenho para mim que ele idealizou tais correspondências para encontrar suas doutrinas na Bíblia. Ele diz que cada palavra, na Bíblia, tem pelo menos dois sentidos. Dante acreditava haver quatro sentidos para cada passagem.
Tudo deve ser lido e interpretado. Por exemplo, se se fala da luz, a luz é, para ele, uma metáfora, símbolo evidente da verdade. O cavalo significa a inteligência, pelo fato de o cavalo nos transportar de um lugar a outro. 
Swedenborg possui todo um sistema de correspondências. Nisto ele se parece muito com os cabalistas.
Depois disso, ele chega à idéia de que no mundo tudo se baseia em correspondências. A criação é uma escrita secreta, uma criptografia que devemos interpretar. Que todas as coisas são, realmente, palavras, salvo as que não conseguimos compreender e que aceitamos literalmente.
Lembro aquela terrível sentença de Carlyle, que leu Swedenborg, não sem certo proveito, e que diz: "A história universal é uma escrita que temos de ler e escrever continuamente". E é verdade: continuamente presenciamos a história universal e somos atores dela. E também somos letras, também somos símbolos: "Um texto divino no qual nos escrevem". Tenho, em casa, um dicionário de correspondências. Nele pode-se procurar qualquer palavra da Bíblia e verificar qual o sentido espiritual que Swedenborg lhe atribuiu. Sem dúvida, ele acreditou, acima de tudo, na salvação pelas obras. Na salvação pelas obras não apenas do espírito, mas também da mente. Na salvação pela inteligência. Para ele, o céu é, antes de mais nada, um céu de extensas considerações teológicas. Os anjos, acima de tudo, conversam. Mas o céu é, igualmente, pleno de amor. Admite-se o casamento no céu. Admite-se tudo que existe de sensual neste mundo. Ele não quer negar nem empobrecer nada.
Atualmente há uma igreja swedenborgiana. Creio que em algum lugar dos Estados Unidos existe uma catedral de cristal. E existem também alguns milhares de discípulos nos Estados Unidos, na Inglaterra (sobretudo em Manchester), na Suécia e na Alemanha. Sei que o pai de William e Henry James era swedenborgiano. Encontrei swedenborgianos nos Estados Unidos, onde uma sociedade continua publicando seus livros e traduzindo-os para o inglês. 
É curioso que a obra de Swedenborg, embora traduzida para muitos idiomas – inclusive indiano e japonês –, não tenha exercido maior influência. Não se conseguiu alcançar a renovação que ele desejava. Ele pensava em fundar uma nova Igreja, que seria, para o cristianismo, o que a Igreja protestante representou para a Igreja de Roma. Em parte, ele descria das duas. No entanto, não exerceu essa vasta influência que deveria ter exercido. Creio que tudo isso faz parte do destino escandinavo, no qual parece que tudo aconteceu como em um sonho e em uma bola de cristal. Por exemplo, os vikings descobrem a América vários séculos antes de Colombo, e nada acontece. A arte do romance é inventada na Islândia, com a saga, mas tal invenção não é difundida. Temos figuras que deveriam ser universais – a de Carlos XII, por exemplo –, mas pensamos em outros conquistadores que realizaram feitos militares talvez inferiores aos de Carlos XII. O pensamento de Swedenborg deveria ter levado à renovação da Igreja em todas as partes do mundo, mas pertence a esse destino escandinavo, que é como um sonho.
Sei que na Biblioteca Nacional há um exemplar de Do Céu, do Inferno e Suas Maravilhas. Em algumas livrarias teosóficas, no entanto, não se encontram obras de Swedenborg. Ele é, porém, um místico muito mais
complexo que os outros; estes só nos disseram haver experimentado o êxtase e tentaram transmitir o êxtase de uma forma até literária. Swedenborg é o primeiro explorador do outro mundo, o explorador que devemos levar a sério. No caso de Dante, que também nos oferece uma descrição do Inferno, do Purgatório e do Paraíso, compreendemos que se trata de uma ficção literária.
Não podemos acreditar, realmente, que tudo aquilo que relata se refira a uma vivência pessoal. Além do mais, aí está o verso que o amarra: ele não pôde ter experimentado em verso.
No caso de Swedenborg, temos uma vasta obra. Temos livros como A Religião Cristã na Providência Divina e, sobretudo, esse livro que recomendo a todos vocês, sobre o céu e o inferno. Esse livro foi traduzido para o latim, para o inglês, para o alemão, para o francês e, creio, também para o espanhol. Nele a doutrina é descrita com grande lucidez. É absurdo pensar que um louco a tenha escrito. Um louco não teria podido escrever com tal clareza. Ademais, a vida de Swedenborg mudou, no sentido de que ele deixou de lado todos os seus livros científicos. Ele pensou que os estudos científicos haviam sido uma preparação divina para enfrentar as outras obras. Dedicou-se a visitar os céus e os infernos, a conversar com os anjos e com Jesus e, em seguida, a nos contar tudo isso em uma prosa serena, em uma prosa antes de mais nada lúcida, sem metáforas nem exageros. Há muitos casos pessoais memoráveis, como o que lhes contei acerca do homem que quer merecer o céu, mas que só pode merecer o deserto, por haver empobrecido sua vida. Swedenborg nos convida a todos a nos salvarmos mediante uma vida mais rica. A nos salvarmos por meio da justiça, da virtude e da inteligência também.
Em seguida virá Blake, que acrescenta que para salvar-se o homem também deve ser um artista. Quer dizer, uma tripla salvação: temos de nos salvar pela bondade, pela justiça e pela inteligência abstrata, e, ainda, pelo exercício da arte. 

9 de junho de 1978.


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