Exploração do Espiritismo

América do Norte reivindica, a justo título, a honra de ter sido a primeira nos últimos tempos a revelar as manifestações de além-túmulo. Por que não deveria ser ela a primeira a dar o exemplo do tráfico e por que, nesse povo tão adiantado sob tantos aspectos, e tão digno de nossa simpatia, o instinto mercantil não se tenha detido no limiar da vida eterna? Quando lemos seus jornais, em cada página vemos anúncios como estes:
“Srta. S. E. Royers, sonâmbula, médium-médico, cura psicologicamente por simpatia. Tratamento comum, se necessário. – Descrição da fisionomia, da moralidade e do Espírito das pessoas. Das dez horas ao meio-dia; das duas às cinco da tarde; das sete às dez da noite, exceto às sextas, sábados e domingos, a não ser por acordo antecipado. Preço: 1 dólar por hora (5 fr. 42 c.).”
Pensamos que a simpatia do médium por seus doentes deve estar na razão direta da quantidade de dólares que lhe pagam. Julgamos supérfluo dar os endereços.
“Srta. E. C. Morris, médium escrevente. Das dez horas ao meio-dia; das duas às quatro da tarde; de sete às nove da noite.”
“J. B. Conklin, médium. Recebe visitantes em seus salões todas as noites. Atende em domicílio.”
“A. C. Styles, médium lúcido. Garante o diagnóstico exato da doença da pessoa presente, mediante pagamento. Regras estritamente observadas: Para um exame lúcido e prescrições, com a pessoa presente, 2 dólares; para descrições psicométricas dos caracteres, 3 dólares. Não esquecer que as consultas são pagas
antecipadamente.” 
“Aos amadores do Espiritismo. Srta. Beck, médium crisíaco, falando, soletrando, batendo e raspando. Os verdadeiros observadores podem consultá-la das  nove horas da manhã às dez horas da noite, em sua casa. Um médium batedor muito poderoso está associado à Srta. Beck.”
 Pensam que tal comércio só seja feito por especuladores obscuros e ignorantes? Eis o que prova o contrário:
“O Dr. G. A. Redman, médium experiente, está de volta a Nova Iorque. É encontrado em seu domicílio, onde recebe como outrora.”
O tráfico do espiritualismo estendeu-se até os objetos comuns. Assim, lemos no  Spiritual Telegraph, de Nova Iorque, o anúncio de “Fósforos Espirituais; nova invenção sem fricção e sem cheiro.”
O que é mais honroso para esse país do que esses anúncios é o artigo seguinte, que encontramos no Weekly American, de Baltimore, de 5 de fevereiro de 1859: 
Estatística do Espiritualismo. O  Spiritual Register, de 1859, estima em 1.284.000 o número de espiritualistas nos Estados Unidos. Em Maryland há 8.000. O número total no mundo é avaliado em 1.900.000. O  Register conta 1.000 oradores espiritualistas; 40.000 médiuns públicos e privados; 500 livros e brochuras; 6 jornais hebdomadários, 4 mensais e 3 quinzenais, consagrados a essa causa.” 
Os médiuns especuladores ganharam a Inglaterra. Em Londres contam-se diversos que não cobram menos de um guinéu por sessão. Caso se aventurem a introduzir-se na França, esperamos que o bom-senso dos verdadeiros espíritas lhes faça justiça.
A produção dos efeitos materiais mais excita a curiosidade do que toca o coração. Daí, nos médiuns com aptidão especial para obter tais efeitos, uma propensão para explorar essa curiosidade. Os que apenas recebem comunicações morais de ordem elevada têm uma instintiva repugnância por tudo quanto cheira a especulação desse gênero. Para isso há nos primeiros um duplo motivo: primeiro, porque a exploração da curiosidade é mais lucrativa, pois os curiosos são abundantes em todo o país; depois, porque os fenômenos físicos, agindo menos sobre o moral, há neles menos escrúpulos. Aos seus olhos, sua faculdade é um dom que deve sustentá-los na vida, como uma bela voz para um cantor; a questão moral é secundária ou nula. Desse modo, uma vez neste caminho, o atrativo do ganho desenvolve o gênio da astúcia; como é preciso ganhar dinheiro, não se quer falhar na reputação de habilidade, cometendo trapalhadas. Aliás, quem garante que o cliente que hoje vem voltará amanhã? É preciso, pois, satisfazê-lo a qualquer preço; se o Espírito não colabora, o médium vem em seu auxílio, o que de outro modo é muito mais fácil para as coisas materiais do que para as comunicações inteligentes, de elevado alcance moral e filosófico. Para os primeiros, a prestidigitação tem recursos que faltam absolutamente aos outros. Eis por que dizemos que é preciso considerar, antes de tudo, a moralidade do médium; que a melhor garantia contra a trapaça está em seu caráter, em sua honorabilidade, em seu desinteresse absoluto. Em qualquer parte onde se insinua a sombra do interesse, por menor que seja, tem-se o direito de suspeitar. A fraude é sempre condenável, mas quando se liga às coisas de ordem moral é um sacrilégio. Aquele que, só conhecendo de nome o Espiritismo, busca imitar-lhe os efeitos, não é mais repreensível que o saltimbanco, ao imitar as experiências do físico. Sem dúvida, mais valeria que tal não acontecesse; mas, na verdade, ele não engana a ninguém, porque não  faz mistério de sua qualidade: só esconde os meios. Já o mesmo não acontece com aquele que, falsificando, ilude a boa-fé de outrem com o ignóbil objetivo de especular. É mais que fraude: é hipocrisia, porquanto se dá por aquilo que não é; e é ainda mais culpado se, realmente possuindo algumas faculdades, delas se serve para melhor abusar da confiança que lhe concedem. Mas Deus sabe o que lhe está reservado, talvez ainda nesta vida. Se os falsos médiuns não fizessem mal senão a si próprios, só haveria um meio-mal; o que é mais deplorável são as armas que fornecem aos incrédulos e o descrédito que lançam sobre a questão no espírito dos indecisos, desde que reconhecida a fraude. Não contestamos as faculdades, até mesmo poderosas, de certos médiuns mercenários, mas dizemos que o atrativo do ganho é uma tentação de fraude que deve inspirar uma desconfiança tanto mais legítima quanto não se pode ver nessa exploração um excesso de zelo apenas pelo bem da causa. Ainda que não houvesse fraude, nem por isso a censura deixaria de atingir aquele que especula com uma coisa tão sagrada como as almas dos mortos.

Allan Kardec

Revista Espírita
Julho de 1861.

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