POLÊMICA ENTRE VÁRIOS ESPÍRITOS - parte 2

RÉPLICA DE BUFFON

Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon
(Médium – Sr. d’Ambel)

Disseram que fui um gentil-homem das letras e que meu estilo, muito apuradinho, cheirava a pó-de-arroz e a tabaco da Espanha. Não é a consagração mais certa dessa verdade: O estilo é o homem? Embora tenham exagerado um pouco, representando-me com a espada ao lado e a pena à mão, confesso que gostava das belas coisas, das roupas adornadas com lantejoulas, das rendas e dos casacos vistosos, em suma, de tudo quanto fosse
elegante e delicado. É, pois, muito natural que sempre me vestisse com elegância, razão por que meu estilo traz o sinete do bom-tom, esse perfume de boa companhia que se encontra igualmente em nossa grande Sévigné. Que quereis? Sempre preferi os saraus e os pequenos salões das damas elegantes aos cabarés e às assembléias tumultuosas de baixa categoria. Permitir-me-eis, pois, apesar da opinião emitida por vosso contemporâneo Lamennais, manter meu judicioso aforismo, apoiando-o com alguns exemplos tomados
entre vossos autores e filósofos modernos.

Uma das desgraças de vosso tempo é que muitos fizeram da pena uma profissão. Mas deixemos esses artistas da pena que, semelhantes aos artistas das palavras, escrevem indiferentemente pró ou contra tal idéia, conforme são pagos, e gritando segundo o tempo: Viva o rei! Viva a Liga! Deixemo-los.
Esses não são, para mim, autores sérios. Vejamos, abade: não vos ofendais se tomo a vós mesmo como exemplo. Vossa vida, bem ou mal fundamentada, não se reflete sempre em vossas obras? E da indiferença em matéria de religião às palavras de um crente, que contraste, como dizeis! Todavia, vosso tom doutoral é tão categórico, tão absoluto, numa como noutra dessas obras. Haveis de concordar que sois bilioso, padre, e destilais vossa bile em amargos lamentos, em todas as belas páginas que deixastes. Em sobrecasaca abotoada, como em sotaina, ficastes desclassificado, meu pobre Lamennais. Ora, vamos, não vos zangueis, mas convinde comigo que o estilo é o homem.
Se passo de Lamennais  a  Scribe, o homem  feliz se reflete nas tranqüilas e pacíficas comédias de costumes. Ele é alegre, feliz e sensível: semeia a sensibilidade, a alegria e a  felicidade em  suas  obras. Nele, jamais o drama, jamais o sangue; apenas alguns duelos sem perigo, para punir o traidor e o culpado.
Vede em seguida Eugène Sue, o autor dos Mistérios de Paris. É forte como seu príncipe Rodolfo; como ele, aperta em sua luva amarela a mão calejada do operário e, também como ele, é o advogado das causas populares.
Vede o vosso Dumas vagabundo, malbaratando a vida e a inteligência; indo do pólo sul ao pólo norte tão facilmente quanto seus famosos mosqueteiros; fazendo-se conquistador com Garibaldi e indo da intimidade do Duque de Orléans aos pedintes napolitanos; fazendo romances com a história e pondo a história em romances. Vede as obras orgulhosas de Victor Hugo, esse protótipo do orgulho encarnado. Eu, eu, diz Hugo poeta; eu, eu, diz Hugo em seu rochedo de Jersey. Vede Murger, esse poeta lírico dos costumes fáceis, representando conscientemente seu papel nessa boemia que cantou. Vede Nerval, de cores estranhas, de estilo espalhafatoso e incoerente, fazendo  fantasia com sua vida, como o fez com sua pena. Quantos deixo, e dos melhores, como Soulié e Balzac, cujas vidas e obras seguem  caminhos paralelos! Mas creio que estes exemplos serão suficientes para não mais repelirdes, de modo tão absoluto, o meu aforismo: O estilo é o homem.
Não teríeis, caro abade, confundido a forma e o fundo, o estilo e o pensamento? Mas, ainda aí, tudo se acomoda.
Buffon

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